" Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais." (Clarice Lispector in Felicidade Clandestina)
Esse é um dos trechos de Clarice que mais mexem comigo, desde menina.
E é desde lá que tenho esses dias de desgosto de mim mesma.
Não tem jeito, um dia a gente olha pra trás e só vê perdas e destroços. E aí eu penso: não pode ser coincidência. É tudo culpa minha, eu sou um desastre mesmo.Tenho tantos mais defeitos a acrescentar na lista dela...
Felizmente - ou não - isso acaba passando. Antigamente isso passava meio randomicamente, porque coisas boas, de acordo com a lei das propabilidades, acontecem na mesma proporção que as ruins, e ficava elas por elas.
Mas hoje eu tenho um compromisso de atitude quando me sinto fodida. Eu fecho os olhos e peço a Deus que, se eu tiver errado, eu quero mudar e não me importa o quanto vá doer perceber minha pequeneza. O meu pacto é com o crescimento.
Eu, hoje, acho que posso suportar que me digam tudo, desde que por amor. Porque não tenho trato com a estagnação, a morte, a repetição.A dor que não suporto mais é a violência estéril comigo mesma. O peso da culpa, o abandono silencioso, os argumentos imaginários que não puderam encontrar interlocução e ficam vagando dentro da gente feito alma penada. Isso, não.
Nem sempre a gente merece mesmo. Mas a gente pode aprender a merecer, se escolher.
Eu nunca esqueço de uma palestra esotérica que assisti uma vez em que a guru dizia: aceitem que a dor no peito é de expansão. É para comportar, é para caber.
Hoje meu peito dói, dói. E eu gosto de pensar que meu coração está crescendo, é o único consolo. E onde cabe tanta dor, há de caber felicidade do mesmo tamanho.
Tem uma música que eu e a Inês aprendemos na creche dela em Genebra e até hoje é uma das nossas preferidas:
" No tempo que eu era só/ e não tinha amor nenhum
Meu coração batia mansinho: tum. tum. tum
Aí veio você, o meu amor número 1
E o meu coração pôs-se a bater: TURUMTUMTUMTUUM".
Sempre fortalecendo o coração, na esperança de que ele mereça mais.
