Quem foi que disse mesmo que o não já está pronto dentro da gente?
Maior verdade do mundo. O não está sempre ali, no automático. A manutenção da ordem e da economia psíquica, o não é o partido da situação. O não é de uma força muito digna mas não é revolucionário.
Talvez por isso- pra manter a farsa- o não seja super valorizado. Quem diz não é casca grossa. Punk e hardcore. Bate a porta e sai gritando não, não, não e não. Tem personalidade. Forte e atirado. Se joga ( não importa que seja do precipício, suicídio, sincericídio ou homicídio). Corajoso. Irreverente. Original. Louco. Uau, que escândalo.
Tá bom. Essa é a maior lorota do mundo.
Ser punk de raiz é receber, aceitar, deixar. Sim, dizer sim, como dizem que Maria disse a Deus "Faça-se em mim...". Sim, como quando um passarinho pousa bem de levinho no ombro de um bicho, que deixa. E fica quietinho como se isso fosse fazer durar mais. O amor, aquele que faz histórias lindas, é assim: uma sucessão de sims escandalosos e chocantes, de tão suaves e despretensiosos. Um dia a gente está em casa de bobeira e um sujeito passa na janela e chama: vamos tomar um café? E você pensa na violência deste mundo, na novela pela metade, e no dever de casa por fazer. Pondera e diz: Sim. Sim. Mas como assim, que bobagem, vcs nem tem dinheiro, nem paixão, nem se conhecem, nem tem idade, nem tem juízo, nem isso, nem aquilo... Sim é uma coisa muito mesmerizante e espalhafatosa. E endiabrada, vá de retro. Sim é uma coisa muito perigosa, afinal, pode mudar sua vida e isso não é inofensivo. E, poderoso e come-quieto como ele só, em uma fração de segundos, o sim mais bobo do mundo já faz maravilhas incríveis.
Hoje em dia, a cada vez que eu digo um não - ou que recebo, já que dado o adiantado do meu processo de evolução karmica, eu digo cade vez menos e recebo cada vez mais e mais bárbaros nãos- eu gosto de imaginar que há um sim, com o dobro do tamanho, mais radical e mais barbarizante, me esperando na próxima curva da estrada. E saber que um sim enorme- pois fica proporcionalmente maior à medida que cresço com os nãos -, generoso e fértil me espera, sempre torna os nãos menos indigestos. Na verdade, o sim é também o sentido do não. É dizendo e recebendo nãos que a gente se apronta e se burila pra se tornar um sim, que é o que a gente mais quer.
Essa eu sei que foi Caetano quem cunhou: "Coragem grande é poder dizer sim". Muito punk, como sempre.
