Eu vou falar de amor, me dêem licença.
E acho sim que tudo já foi dito e é tão bonito e eu acredito num claro futuro.
O que faltava era eu ter vontade de falar de amor de novo.
E agora que ela aconteceu, preciso honrá-la.
E o que eu quero dizer é que o amor é algo muito lógico. Tão exato que não cabe em si ( eu sei, já disseram isso também).
Só que insistem em nos condicionar a esperar o contrário. Ensinam que o amor é difícil. Difícil de encontrar, difícil de manter. E não que não o seja, de fato. Mas acho que pervertem um pouco a precisão da informação sobre o que exatamente vem a ser tão difícil no amor.
Dizem que é difícil manter a fidelidade, que a carne é fraca. Nos advertem quanto à necessidade de manter "a chama acesa" com algemas e jantares à luz de velas, a despeito da famigerada rotina.
Nos alertam quanto aos filhos e toda a preocupação advinda deles. Melhor não tê-los, mas se não os temos...
Propagam muito os perigos da intimidade ( o que pra mim é uma coisa muito maluca já que intimidade, sempre, só facilitou a minha vida, mas enfim, eu sou estranha) e nos ensinam truques que nos mantenham misteriosos e atraentes. E apregoam que nunca devemos nos entregar demais, a porta tem de ficar semi-aberta e um jogo de poder e controle sempre se insinuando.
Então. É que eu acho que isso tudo é uma enorme teoria da conspiração de propósito reacionário ( sim, a ordem social não gosta de amor; família e romance tudo bem, mas não amor) que serve unicamente para desviar o foco de atenção da única coisa realmente difícil no amor: é que a gente sempre está pequeno pro tamanho da revolução que ele provoca na vida.
E isso dói. E ninguém nos ensina- nunca menciona- que quando vc encontra um grande amor vai ser lindo mas acima de tudo, vai doer. Vai romper, vai quebrar, vai assustar e vai parecer errado e desconfortável. E que é preciso suportar o vazio do enquanto. Enquanto você não cresce. Enquanto você não sabe. Enquanto você aprende a comportar tudo aquilo que chegou de novo. Enquanto o futuro se delineia. Você vai se sentir pequena e ridícula e todas as sua inseguranças infantis vão atacar novamente. Você vai achar que não vai conseguir e vai querer fugir. Muito insistentemente e acima de tudo, vai querer fugir. O psiquismo também é um reacionário desgraçado. Nunca você parecerá tão inadequada. O sono vai mudar, tudo que estava acomodado vai se mexer e você vai mais uma vez achar que aquilo está muito diferente dos filmes de amor e portanto, não pode estar certo: mais um motivo pra fugir. Você vai ficar tão acelerada de puro excesso que o transbordamento será inevitável. Você vai chorar, vomitar, surtar, beber, se maltratar, gritar com os outros ou o que quer que você faça quando não se suporta.
Sim, é tudo normal. O amor é feito pra levar a gente adiante, contra toda economia psíquica e social. Porque ele é o sopro- talvez o único que nos reste - da alma. O amor é feio e estranho como a fada que se disfarça de bruxa para despertar o amor mais profundo do príncipe. E se ele não acorda, vira prisioneiro da sua aparência bestial- mais ou menos como nós, preocupados com barrigas saradas e roupas bacanas como se fosse isso que essencialmente alimenta a tal da chama. Não é. Essa chama canibalesca só se alimenta de vida humana genuína.
Lembram do Platão, o filósofo do Mito da Caverna? Então, antes do amor a gente é simplesmente uma raça que nunca viu a luz do sol e quando vê, acha que arder tanto o olho não pode ser uma coisa boa, melhor voltar pra caverna e fechar a porta com uma pedra bem grande. A luz do encontro sempre incomoda um pouco. Tem que suportar.
É que a gente vai se sintonizando e se expandindo. E de novo e de novo. É isso que é amor. E é muito gostoso, é- obviamente agora vou abusar da minha licença poética de quem ama- sol da praia, raio, estrela e luar. É a vida que acontece, é a felicidade, a criatividade, a fertilidade. E juro com a mão no fogo que tudo que é bom só melhora com a intimidade. Já o que é ruim, pode sim piorar bastante.

