quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Tao do Facebook ou Um Romance contemporâneo- Primeiro Ato

A gente se encontrou pelas redes sociais na maior obra do que alguns chamariam  de destino e outros, chamariam de azar ( mais propriamente hasard, a palavra originária que significa acaso). Um clique me levou ao blog dele. Outro, e ele achou o meu. E como o nome rede já diz,  tínhamos "amigos" em comum.  Aí puxei papo de chat. Não que isso seja alguma coisa raríssima pra mim. Eu puxo papo virtual com todo mundo, forço a amizade e quase sempre o resultado é gratificante. Eu puxei, mas o interessante é que o papo desenrolou fácil. No primeiro minuto. Aconchegante, divertido, gostoso, sexualizado.  E não que eu seja má, mas já avisei que sou macaca velha em chats despretensiosos que acabam sendo incríveis. Eu achei ótimo mas não fico assim tão impressionada.

Eu não me lembro bem quanto tempo exatamente durou essa parte virtual, mas sei que foi muito pouco. Os papos eram incríveis, intensos, não tinha desperdício de linha. E o cara queria me ver, desde sempre. E eu, que nunca recuso qualquer possibilidade  remota de tornar a vida um pouco menos tacanha, comprei a idéia. Quando concordei, pensei: ok, eu vou pra São Paulo, como bem, faço compras e tomo um café com o cara. Mas não sabia como ou qd isso seria possível. Daí me veio um Exu qualquer e eu pensei, bom, mas se o cara quer mesmo me ver, porque ele não vem a Brasília? E quando o convidei, foi meio imaginando que NINGUÉM viria a Brasília tão facilmente quanto iria a São Paulo. Mas ele topou imediatamente e e ainda disse "eba". Aí nessa hora, o cara ganhou minha atenção. E ele  ainda replica assim: pode ser depois de amanhã? E você pensa que tem que fazer depilação, unha, cabelo, emagrecer 3kg e todas essas coisas, mas eu, que sou uma pessoa esquisita que nunca nega fogo, mandei um "Claro".

No dia que ele ia chegar aconteceu uma confusão enorme. Ele perdeu o vôo e teve que fazer uma escala super trabalhosa para chegar aqui. E só então- enqt a gente conversava virtualmente nas horas de espera no aeroporto- eu descobri que havia outra confusão: a tal amiga em comum, não era só exatamente uma amiga e estava surtada- com toda razão- em outra janela virtual. Eu acho que deveria ter dito " deixa ela pra lá, dá um fora nessa doida", mas não sou mais tão histérica. O que pensei foi: 1) Ok, eu nunca vi essa minha "amiga" do facebook, mas ela é a melhor amiga de uma grande amiga minha; 2) Minha  grande amiga está entre as 10 pessoas boas deste mundo, por que a amiga dela não estaria tb?; 3)  Se ele de fato não quer nada com ela- o que já é estranho, afinal é uma das 10 pessoas boas do mundo segundo a minha teoria-, por que judia da moça deixando ela correr atrás? Sempre desconfio desses cafajestes acidentais que nunca dizem não. Se o cara faz isso com ela, não fará diferente comigo. Ponto final. 

Uma hora ele chegou. E eu,  em jejum nervoso e tremendo dos pés a cabeça no saguão do aeroporto- pq  é MUITO difícil encontrar pessoalmente um paquera virtual que já vem com tantas expectativas- , não me impressionei. Não rolou mágica que correspondesse às conversas, e que aliás, deixa eu avisar logo, nunca rolaria porque o virtual e o real só se triscam. Não rolou no aeroporto, não rolou no restaurante, não rolava, eu só queria saber onde eu encontrava o cara da internet. E não tem nada a ver com beleza ( até porque, eu achei ele bem lindo sim). Achei que ele era frágil. E caótico além do que eu suporto ( e eu vou longe).  E não que isso seja um defeito, muito pelo contrário, mas pra onde quer que eu olhasse, eu só via feridas num cara que nunca deixaria ninguém chegar perto o suficiente pra curá-las.  A dor  e o caos são as verdadeiras resistências dessa vida. É uma espécie de controle  máximo, pq se tudo doer e não houver ordem ( e progresso!) nenhuma, pimba- nunca pode piorar. Eu tenho uma sensibilidade enorme para detectar essas coisas, que já era minha, mas que foi lapidada em anos de prática clínica. Mas meu veredicto foi: Amor não é nada, a gente sempre pode dar um pouquinho. E de qualquer forma uns amassos nunca tiraram pedaço de ninguém, né?

Pois é, deixa eu avisar também: amasso super tira pedaço da gente. Teve alguma coisa que explodiu na nossa pele e vou explicar direitinho pra ninguém ficar achando que é "química". Não é. É qd alguém toca a gente exatamente naquilo que não está na pele, nem no papo, nem na racionalidade. Está muitas camadas mais profundo. Ele beija como eu: como se empenhasse a vida. Como quem não tem o que perder. Como quem acredita. E nessa hora, exatamente, eu compreendi que aquilo ia doer. Ele não é dos que se rendem e um dia começam a ter algo a perder. E eu, todo mundo aqui já conhece, né? Eu sou a mãe de família canceriana mais convicta do universo.

Daí que foram dias ótimos. Um campo de energia incrível se formava quando estávamos juntos. Um calor, uma luz. Eu nunca acreditei ( ou desacreditei) nessas coisas mas eu praticamente podia cortar com a faca aquela luz que a gente criava juntos. Eu sentia o amor me preenchendo por dentro feito hidratação em pele velha. Era uma coisa de expandir a alma. Assim, sem nenhuma razão cabível. De graça, só porque a gente tinha muito amor pra dar e aceitava receber. Só porque era bom como estar em algum céu.

A história continua, mas não digam que não avisei que não há final feliz. E não muito infeliz, por certo.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Felicidade não clandestina.

" Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais." (Clarice Lispector in Felicidade Clandestina)


Esse é um dos trechos de Clarice que mais mexem comigo, desde menina.
E é desde lá que tenho esses dias de desgosto de mim mesma.
Não tem jeito, um dia a gente olha pra trás e só vê perdas e destroços. E aí eu penso: não pode ser coincidência. É tudo culpa minha, eu sou um desastre mesmo.Tenho tantos mais defeitos a acrescentar na lista dela...
Felizmente - ou não - isso acaba passando. Antigamente isso passava meio randomicamente, porque coisas boas, de acordo com a lei das propabilidades, acontecem na mesma proporção que as ruins, e ficava elas por elas.
Mas hoje eu tenho um compromisso de atitude quando me sinto fodida. Eu fecho os olhos e peço a Deus que, se eu tiver errado, eu quero mudar e não me importa o quanto vá doer perceber minha pequeneza. O meu pacto é com o crescimento.
Eu, hoje, acho que posso suportar que me digam tudo, desde que por amor. Porque não tenho trato com a estagnação, a morte, a repetição.A dor que não suporto mais é a violência estéril comigo mesma. O peso da culpa, o abandono silencioso, os argumentos imaginários que não puderam encontrar interlocução e ficam vagando dentro da gente feito alma penada. Isso, não.
Nem sempre a gente merece mesmo. Mas a gente pode aprender a merecer, se escolher.
Eu nunca esqueço de uma palestra esotérica que assisti uma vez em que a guru dizia: aceitem que a dor no peito é de expansão. É para comportar, é para caber.
Hoje meu peito dói, dói. E eu gosto de pensar que meu coração está crescendo, é o único consolo. E onde cabe tanta dor, há de caber felicidade do mesmo tamanho.
Tem uma música que eu e a Inês aprendemos na creche dela em Genebra e até hoje é uma das nossas preferidas:
" No tempo que eu era só/ e não tinha amor nenhum
Meu coração batia mansinho: tum. tum. tum
Aí veio você, o meu amor número 1
E o meu coração pôs-se a bater: TURUMTUMTUMTUUM".


Sempre fortalecendo o coração, na esperança de que ele mereça mais.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Se é amor, transborda e arde.

Eu vou falar de amor, me dêem licença.

E acho sim que tudo já foi dito e é tão bonito e eu acredito num claro futuro.

O que faltava era eu ter vontade de falar de amor de novo.

E agora que ela aconteceu, preciso honrá-la.

E o que eu quero dizer é que o amor é algo muito lógico. Tão exato que não cabe em si ( eu sei, já disseram isso também).
Só que insistem em nos condicionar a esperar o contrário. Ensinam que o amor é difícil. Difícil de encontrar, difícil de manter. E não que não o seja, de fato. Mas acho que pervertem um pouco a precisão da informação sobre o que exatamente vem a ser tão difícil no amor.

Dizem que é difícil manter a fidelidade,  que a carne é fraca. Nos advertem quanto à necessidade de manter "a chama acesa" com algemas e jantares à luz de velas, a despeito da famigerada rotina.
Nos alertam quanto aos filhos e toda a preocupação advinda deles. Melhor não tê-los, mas se não os temos...
Propagam muito os perigos da intimidade ( o que pra mim é uma coisa muito maluca já que intimidade, sempre, só facilitou a minha vida, mas enfim, eu sou estranha) e nos ensinam truques que nos mantenham misteriosos e atraentes. E apregoam que nunca devemos nos entregar demais, a porta tem de ficar semi-aberta e um jogo de poder e controle sempre se insinuando.

Então. É que eu acho que isso tudo é uma enorme teoria da conspiração  de propósito reacionário ( sim, a ordem social não gosta de amor; família e romance tudo bem, mas não amor) que serve unicamente para desviar o foco de atenção da única coisa realmente difícil no amor: é que a gente sempre está pequeno pro tamanho da revolução que ele provoca na vida.

E isso dói. E ninguém nos ensina- nunca menciona- que quando vc encontra um grande amor vai ser lindo mas acima de tudo, vai doer. Vai romper, vai quebrar, vai assustar e vai parecer errado e desconfortável. E que é preciso suportar o vazio do enquanto. Enquanto você não cresce. Enquanto você não sabe. Enquanto você aprende a comportar tudo aquilo que chegou de novo. Enquanto o futuro se delineia. Você vai se sentir pequena e ridícula e todas as sua inseguranças infantis vão atacar novamente. Você vai achar que não vai conseguir e vai querer fugir.  Muito insistentemente e acima de tudo, vai querer fugir. O psiquismo também é um reacionário desgraçado. Nunca você parecerá tão inadequada. O sono vai mudar, tudo que estava acomodado vai se mexer e você vai mais uma vez achar que aquilo está muito diferente dos filmes de amor e portanto, não pode estar certo: mais um motivo pra fugir. Você vai ficar tão acelerada de puro excesso que o transbordamento será inevitável. Você vai chorar, vomitar, surtar, beber, se maltratar, gritar com os outros ou o que quer que você faça quando não se suporta.

Sim, é tudo normal. O amor é feito pra levar a gente adiante, contra toda economia psíquica e social. Porque ele é o sopro- talvez o único que nos reste - da alma. O amor é feio e estranho como a fada que se disfarça de bruxa para despertar o amor mais profundo do príncipe.  E se ele não acorda, vira prisioneiro da sua aparência bestial- mais ou menos como nós, preocupados com barrigas saradas e roupas bacanas como se fosse isso que essencialmente alimenta a tal da chama. Não é. Essa chama canibalesca só se alimenta de vida humana genuína.

Lembram do Platão, o filósofo do Mito da Caverna? Então, antes do amor a gente é simplesmente uma raça que nunca viu a luz do sol e quando vê, acha que arder tanto o olho não pode ser uma coisa boa, melhor voltar pra caverna e fechar a porta com uma pedra bem grande. A luz do encontro sempre incomoda um pouco. Tem que suportar. 
É que a gente vai se sintonizando e se expandindo. E de novo e de novo. É isso que é amor. E é muito gostoso, é- obviamente agora vou abusar da minha licença poética de quem ama- sol da praia, raio, estrela e luar. É a vida que acontece, é a felicidade, a criatividade, a fertilidade. E juro com a mão no fogo que tudo que é bom só melhora com a intimidade. Já o que é ruim, pode sim piorar bastante.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Dois pra lá, dois pra cá.

Lévi-Strauss é um cara que teve a  sacada mais genial do mundo, na minha opinião.

Estudou culturas para lá e para cá até decretar: mito, ciência, filosofia, política, sexualidade, religião, em todo o conhecimento - a estrutura do pensamento humano é feita de pares binários que se opõem, nunca muda.  Bem e mal. Preto e branco. Homem e Mulher. Sempre. Até no inferno ( ou no céu?).

E não acho que seja coincidência o fato de que as pessoas mais inteligentes que eu conheço sejam aquelas que transgridem o binarismo de alguma maneira, mesmo que sutil. Ou porque são bissexuais. Ou porque são paradoxais. E estão muito depois de esgotar o tempo regulamentar da competição.

E que os piores tipos de burrice - racismo, xenofobia, homofobia- nada mais sejam do que uma radicalização do pensamento binário.

Eu acho que erotizar o pensamento binário é a próxima missão. Tal qual o nosso corpo, que tem muito mais do que duas zonas erógenas, é preciso multiplicar o erotismo do pensamento. Este sim, anda muito careta. E isso não tem nada a ver com opção sexual, novas experimentações e loucuras. Tem a ver com afinar o instrumento para captar nuances mais sutis, mais integradoras e complexas.

Fora que eu não aguento mais repetir o script não sou boazinha, não sou mazinha, não sou só inteligente, não sou só bonita, etc. Não é possível que passaremos a vida circunscrevendo as pessoas com a limitação do nosso pensamento  "ou isso ou aquilo", coisa mais arcaica e preguiçosa. Fica chato.

sábado, 11 de dezembro de 2010

O dia em que descobri o valor de um reacionário.

Meu pai deve ser o cara mais chato da face da terra. Ele reclama de absolutamente tudo que você puder imaginar e, principalmente, daquilo que você não é chato o suficiente para imaginar. Ele é um cara metódico, fechado e mal-humorado na maior parte do tempo. Melancólico, volta e meia chora porque sente saudade da mãe dele, a vovó Eva, que morreu qd ele ainda era criança. Ele fura greve e faz coisas muito odiosas tipo não preservar a área verde regulamentar na fazenda dele.

Mas meu pai é um cara devoto e não é à Deus. Ele é devoto à nós. Ele é de uma constância e de um amor com porcentagem zero de hesitação.  Sempre tem um elogio para nós. Ele diz que é um sujeito tosco mas Deus deu a ele nós três: minha mãe, eu e meu irmão. Cada um com uma estrela na testa ( palavras dele). E ele tinha que correr atrás do atraso. 

Meu pai não entrou comigo quando me casei. Não brigou. Simplesmente disse que não ia. Compareceu, BANCOU, mas não entrou. E disse: Minha filha, "o senhor seu marido" é um cara conhecido, respeitado e trabalhador. Mas acompanhar marido não dá certo. O homem é que tem que ir atrás da mulher. Claro que eu respondi algo como : não pai, ele não é o que vc está pensando. Ele é diferente, ele não é conservador como você. Ele é de esquerda, do bem, nunca vai fazer isso comigo. E eu segui pro exterior casada às custas do MEU PAI e com um único bem material: um carro, que MEU PAI me deu.

Pois bem, 7 anos, um chute e um bebê depois, eu ensaiava como eu ia fazer para contar pro meu pai o que tinha acabado de acontecer. Não consegui. Ele disse alô e eu caí na maior choradeira da minha vida. A mais incontrolável. Não porque eu tivesse medo dele me censurar. Mas porque eu sabia que ele ia sofrer demais. Minha mãe contou e ele pareceu aliviado. Falou comigo assim: "Minha filha, não sinta raiva, ele não é ruim. O cara quando é fraco já cai na primeira oportunidade. Já foi tarde. Vamos cuidar da sua vida". Um dia ele perguntou: Camarada, o que foi que aconteceu? E o camarada disse: " Eu não tava feliz". E meu pai falou: Tá certo. Os anos que meus filhos eram pequenos e que eu cuidei da Marta foram os mais felizes da minha vida. Se você não tá feliz com isso, vá procurar sua felicidade".

E no outro dia ele pegou o único bem que  eu trouxe de 7 anos de casamento- o carro, que ele mesmo havia me dado 7 anos antes- e trocou por um novo. Ajeitou minha vida e a da minha filha e ainda disse que sentia orgulho de mim. Falou: "Filha, você é tão linda, onde você chega todo mundo pára pra te olhar. Eu mesmo tenho vergonha de mim quando você está, você brilha que até dói o olho. E toda vez que vc chegava da escola com seu caderninho dourado eu pensava: Chico, te cuida, essa menina vai descobrir rápido que vc é um idiota". E minha fé na vida voltou.

Aí eu comecei a ponderar, sabe.  O bem não é suficiente. Um cara "do bem" vai levar quanto tempo para jogar um clichê na sua cara como pretexto pra qualquer coisa egoísta mas que envolva um "bem" como valor fundamental? Ele vai usar as palavras " felicidade", "liberdade", "vida" e "paixão" como se ele fosse o único ser-humano digno de sofrer a falta dessas coisas. Ele vai achar que está revolucionando e buscando o bem, de fato é o que nos dizem. Ele vai dizer que você é careta e hipócrita, que não há mais amor, vai rir por último, vai ter namoradas. Vai fazer política, vai fazer greve, vai esculhambar toda a ordem das coisas porque o sistema é podre e a religião, o ópio do povo. Claro que a empregada doméstica vai lavar a roupa dele e a ex-mulher vai criar os filhos dele e a mãe, coitada, vai perder o sono por causa dele.  Isso sem contar nos sogros reacionários que vão, sempre, bancar tudo no fim das contas. Tudo bem, eles estão livres muito justificadamente:  bem intencionados, vão mudar o mundo.

Aí me aparece uma questão que tem me vindo muito ultimamente:  eu tb quero o bem, um mundo melhor, o amor e um pouco de sacanagem, mas o que é revolução (de verdade)?

A gente cria um conceito raso e estanque sobre as coisas e se esquece de revisitá-los conforme  vai mudando.  Não cheguei a conclusão nenhuma ainda, na verdade, nem sei se há. Só sei que na minha humilde experiência, a única coisa que me trouxe alguma liberdade foi, paradoxalmente, a disciplina que meu pai me ensinou.
Se estudo, me sinto livre, o conhecimento liberta a mente sempre tão bombardeada de tantas referências medíocres que a gente obedece sem nem perceber. 
Se cuido do meu corpo, me liberto também dos grilhões da auto-estima que tentam, e como, massacrar a gente.
Se escolho me dedicar as pessoas que eu amo, me liberto de me afogar no meu próprio egocentrismo, construo alguma coisa maior que eu e minhas paranóias mesquinhas, que é tudo o que conseguimos fazer sozinhos. Alguma coisa que eu jamais construiria sem o amor. Escapo desse discurso individualista-pessimista que o sistema( sim, ele mesmo) insiste em nos empurrar. 

Claro que tudo isso é bem difícil. É chato. E claro que o que todo mundo quer- até eu!- é curtir a vida adoidado. Mas a revolução, o que quer que seja isso hoje, é feita, também, de atos reiterados. E não de farsas histéricas inconsistentes. Essas não me pegam mais.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Superpoderes de Holograma.

Todo super-herói que se preze, tem um super poder. 

Pode ser uma força sobre-humana, a capacidade de ficar invisível ou a velocidade ultra-sônica. Todos eles tem alguma habilidade que os diferencia da humanidade  e em geral é usada para a promoção do bem comum.


A proteção do bem comum ou, nas palavras de Freud, a manutenção do princípio do prazer ( evitar a dor- acima de tudo, evitar a dor; se possível, obter prazer) não é uma coisa exclusiva dos super-heróis. Pelo contrário, é uma coisa muito da mundana. Todos nós temos nossas armas de defesa e de manutenção daquilo que consideramos o nosso "bem" -  que equivale à preservação da ordem das coisas, afinal, já estamos acostumados a ela.  Mas não é difícil concluir que a manutenção do sofrimento conhecido não é equivalente ao bem, ou mesmo ao prazer. O seja: o nosso entendimento do que nos faz bem está atalmente viciado por nossos medos. Más experiências amorosas, teorias enviesadas pelos fracassos e pelo valor da nossa existência, abalado nesse mundo individualista, formam um Fantástico Mundo de Bob ( substitua por João, Maria, José, Ana...) de cada um. E todo este aparato imaginário que criamos é tão profundamente arraigado nos nossos fundamentos mais arcaicos que é muito difícil separar o real daquele que é nosso real-guia de estimação, tipo um cão de guarda: criamos, alimentamos, fortalecemos e ele vai ficando cada vez mais bravo.


Eu não sei se todo mundo se lembra  de um desenho dos anos 80 que se chamava " Jem e as Hologramas". Era um desenho bem de menina: uma banda de rock super famosa era composta por meninas que não eram popstars de fato, eram meninas  humildes de um orfanato. Elas tinham um brinco em forma de estrela que dava a elas um superpoder: o de projetar hologramas perfeitos de si mesmas, que enganavam todo mundo. Nestes hologramas elas eram super fashion, bem vestidas, talentosas,  roqueiras, corajosas,  tinha direito a nuvem de fumaça, luzes coloridas, tudo de bom. Mas a maior vantagem delas e o que, na minha opinião, conferia-lhes o super-poder é que elas SABIAM que o holograma não era real. E voltavam resignadas a serem elas mesmas depois do show.

Nosso problema é que somos as maiores vítimas dos nossos hologramas. E eles vão ficando tão perfeitos e ricos em detalhes ao longo do tempo, que já não sabemos mais diferenciar o real-real do real -persecutório.  E os hologramas tem detector de perigo e passam a se acionar automaticamente. Qualquer ameaça mínima e pronto: lá vem os efeitos especiais com brilho, som, cores e nuvem de fumaça.  Um grande espetáculo como o da Jem, só que para nós mesmos. Que bom seria que soubéssemos acionar nossos hologramas, conscientemente, apenas quando de fato precisássemos dele. Que bom seria identificar e reconhecer o nosso brinco em forma de estrela. E que ele ficasse quietinho a maior parte do tempo, saudavelmente, permitindo o encontro transformador com o real, a troca de afeto. E no caso de perigo real- que também precisaríamos aprender a identificar- tocaríamos de leve nossa estrelinha e tá-dá: toma aqui um pouquinho da minha (des)ilusão.

Não bastasse o desenho ser fofo, as meninas serem fashion e do rock: elas eram heroínas bem sábias. 

Sou fã.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

“Existe uma tribo na África oriental onde a arte da verdadeira intimidade é fomentada mesmo antes do nascimento. Nessa tribo, o aniversário de uma criança não é contado a partir do dia do seu nascimento físico, nem a partir do dia da sua concepção, como em outras culturas primitivas. Para essa tribo, a data do nascimento é contada a partir da primeira vez em que a criança é um pensamento na mente da mãe. Consciente da intenção de ter um filho com determinado homem, a mãe sai de casa e se senta sozinha debaixo de uma árvore. Fica sentada, atenta, até ouvir a canção do filho que ela espera conceber. Quando ouve a canção, volta para o povoado e a ensina para o pai, para que possam cantar juntos e então fazem amor, convidando a criança a se juntar a eles. Depois que a criança é concebida, ela canta para o bebê no seu ventre. Depois ensina a canção para as velhas e parteiras da tribo, para que através do trabalho de parto e do milagroso momento do nascimento a criança seja recebida com essa canção. Depois do nascimento todos os habitantes da tribo aprendem a canção do novo membro da comunidade e a cantam para a criança quando ela cai ou se machuca. A canção é cantada nos momentos de triunfo, ou nos rituais e iniciações. Essa canção torna-se parte da cerimônia do casamento quando a criança cresce e, no fim da sua vida, seus entes queridos reúnem-se em volta do seu leito de morte para cantar a canção pela última vez.”
( Em: Dean Ornish (1998) Amor e Sobrevivência, a intimidade que cura.)

Isso é porque eu nunca entendi essa de achar que economizar afeto seja bom para alguém.