Adoro homem que superou o narcismo aos 2 anos de idade e gosta de mulher, de verdade. Encenação fetichista não conta.
Adoro homem que não sabe o que é celulite e acha as modelos todas magras demais;
Adoro homem que promete pouco, mas sempre cumpre;
Adoro homem que toma a iniciativa 87% das vezes;
Adoro homem que fica emocionado quando recebe os outros 13%;
Adoro homem que chora por qualquer coisa;
Adoro homem que conversa sobre qualquer coisa sem medo de parecer gay;
Adoro homem feminista na prática e machista no discurso ( e por favor, jamais ao contrário);
Adoro homem que não tem frescura com comida e me acompanha na buchada;
Adoro homem que não tem medo da minha inteligência. Ou que tem, mas enfrenta;
Adoro homem que compreende rápido que eu sempre penso mais e melhor e não se revolta contra isso;
Adoro homem que se intimida com minha cultura mas não dá o braço a torcer;
Adoro homem que me ensina coisas que eu nunca sequer imaginei que existiam;
Adoro homem que não se assusta com minha gana;
Adoro homem que gosta de princesinhas mas que prefere meu paradoxo pink punk;
Adoro homem que não implica com roupa, maquiagem e sapato;
Adoro homem que abraça sem segundas intenções;
Adoro homem que olha pro meu peito com segundas intenções mas não perde o fio da meada;
Adoro homem que pergunta se eu preciso de ajuda;
Adoro homem que pede pra ter um bebê comigo ( e não é uma cantada cafajeste);
Adoro homem que goza depressa porque sente muito tesão;
Adoro homem que abre a segunda rodada pra não gozar depressa, mas não por obrigação;
Adoro homem que liga pra dar bom dia e boa noite;
Adoro homem que liga pra perguntar se eu quero que ele traga alguma coisa da rua;
Adoro homem que convida pra jantar como se fosse first date toda semana;
Adoro homem que chega do jantar, vira pro lado e dorme sem dramas, porque afinal, não é um first date e estamos cansados;
Adoro homem que não se importa de chegar atrasado no ave, ave trabalho porque estava discutindo a relação e depois transando;
Adoro homem que não se importa de faltar um dia no ave, ave trabalho porque eu precisei, afinal, eu sou prioridade;
Adoro homem que sabe priorizar as prioridades;
Adoro homem que dá banho nas crianças, faz a mamadeira, carrega a mochila e não acha que está fazendo mais do que a obrigação;
Adoro homem que não tem ex-mulher, porque homem que é homem não se casa, mas caso se case, não se separa;
Adoro homem que gosta de sexo mas sente mais tesão quando sente amor;
Adoro homem cafajeste em remissão que sempre enfia os pés pelas mãos e volta com o rabo entre as pernas;
Adoro homem que confessa a canalhice e reconhece a superioridade feminina, sem contestação;
Adoro homem que percebe a beleza sutil da sordidez da vida à dois;
Adoro homem que não tem medo de brigar e não acha que está tudo acabado entre nós depois de uma boa briga;
Adoro homem que me acha linda e se desconcerta e tem ciúmes;
Adoro homem que é bom de cama mas continua inseguro e sempre se esforça para melhorar;
Adoro homem que acha que tempo para estar com os filhos é a coisa mais preciosa da vida;
Adoro homem que põe dinheiro dentro de casa;
Adoro homem que se esforça pra não se sentir mal quando eu ponho mais dinheiro dentro de casa;
Adoro homem que acorda às 8h de sábado todo animado porque adora o nosso programa de fazer feira aos sábados;
Adoro homem que tem risada de escárnio e voz grossa de homem;
Adoro homem que tem barriga de chopp;
Adoro homem que gosta de ogrices incompreenssíveis como futebol;
Adoro homem que já tenha vivido o suficiente pra compreender que eu dou chilique, reclamo e reclamo, sou autoritária e chata, mas ei, isso se chama mulher e doesn't get any better;
Adoro homem esquerdista e revolucionário mas que tem "sólidos valores de família";
Adoro homem que sabe dar uma situada na minha histeria de um maneira que não seja violenta e que eu até goste;
Adoro homem apaixonante que cuida, porque arrombar, qualquer um faz;
Adoro homem tosco que se derrete todo quando eu chego;
Adoro homem que tem poucas certezas na vida, uma delas sou eu.
...e se deixa entrever. Porque, como já dizia Heidegger, a presença velada se desvela no enquanto. E como esclareceu Sartre: não pensar já é uma escolha do pensamento.
O invisível não é inefável by www.oessencialvislumbrado.blogspot.com is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs License.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
O melhor o tempo esconde.
Eu me apaixonei duas vezes na vida.
Claro que já vivi muitos milagres de amor, muitos encantamentos estrondosos e atômicos das mais diversas espécies. Mas paixão, dessas flechas de cupido que rasgam a gente de cima abaixo e colocam a mente, o coração e o tesão num só eixo, só me aconteceu duas vezes.
A primeira delas eu tinha 19 anos. O cara- que é meu leitor assíduo e deve estar se ajeitando na cadeira e prendendo a respiração neste momento- era namorado da minha prima. Foi um escândalo na família. Um verdadeiro circo de horrores. Mas fazer o quê? Paixão é assim, tipo um jato de luz que estoura na nossa cara- não se vê mais nada. Esse sujeito me deu um trabalho do cão. Isso significa que ele fugia, nunca assumia, desaparecia, traía, cobrava, infernizava de ciúmes, espezinhava, ligava de madrugada, prometia e não cumpria, humilhava, e que no final eu nunca conseguia dizer não pra ele e tudo terminava em sexo louco e juras de amor eterno nos lugares mais improváveis do mundo.
A segunda vez foi mais recente do que eu gostaria de admitir. Tão recente, que ainda não virou passado pra ser narrado e colorido da forma que a gente faz pra significar o vivido de maneira aprazível. De modo que não quero muito dizer sobre ela, ainda.
O assunto aqui é a terceira vez, a futura. E muito embora, à medida que eu envelheça, eu tenha cada vez menos exigências sobre como-oque-quando devam ser ou deixar de ser as pessoas com quem trombo significativamente pelo meu caminho, eu tenho uma exigência cabal. Na verdade, desdobrável em duas:
1. Que eu me apaixone e que ele se apaixone louca e reciprocamente;
2. Que não importa que a criatura do senhor por quem eu me apaixonar seja um sujeito rico, pobre, bonito, horroroso, alto, fodido, estrangeiro, fodão, burro, famoso, torneiro mecânico - contanto que ele não fuja da raia e nem peça pra sair antes de acabar a partida.
É que eu queria saber até onde vai isso de se apaixonar, quando a gente aceita.
Claro que já vivi muitos milagres de amor, muitos encantamentos estrondosos e atômicos das mais diversas espécies. Mas paixão, dessas flechas de cupido que rasgam a gente de cima abaixo e colocam a mente, o coração e o tesão num só eixo, só me aconteceu duas vezes.
A primeira delas eu tinha 19 anos. O cara- que é meu leitor assíduo e deve estar se ajeitando na cadeira e prendendo a respiração neste momento- era namorado da minha prima. Foi um escândalo na família. Um verdadeiro circo de horrores. Mas fazer o quê? Paixão é assim, tipo um jato de luz que estoura na nossa cara- não se vê mais nada. Esse sujeito me deu um trabalho do cão. Isso significa que ele fugia, nunca assumia, desaparecia, traía, cobrava, infernizava de ciúmes, espezinhava, ligava de madrugada, prometia e não cumpria, humilhava, e que no final eu nunca conseguia dizer não pra ele e tudo terminava em sexo louco e juras de amor eterno nos lugares mais improváveis do mundo.
A segunda vez foi mais recente do que eu gostaria de admitir. Tão recente, que ainda não virou passado pra ser narrado e colorido da forma que a gente faz pra significar o vivido de maneira aprazível. De modo que não quero muito dizer sobre ela, ainda.
O assunto aqui é a terceira vez, a futura. E muito embora, à medida que eu envelheça, eu tenha cada vez menos exigências sobre como-oque-quando devam ser ou deixar de ser as pessoas com quem trombo significativamente pelo meu caminho, eu tenho uma exigência cabal. Na verdade, desdobrável em duas:
1. Que eu me apaixone e que ele se apaixone louca e reciprocamente;
2. Que não importa que a criatura do senhor por quem eu me apaixonar seja um sujeito rico, pobre, bonito, horroroso, alto, fodido, estrangeiro, fodão, burro, famoso, torneiro mecânico - contanto que ele não fuja da raia e nem peça pra sair antes de acabar a partida.
É que eu queria saber até onde vai isso de se apaixonar, quando a gente aceita.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Eu não sou contemporânea embora porte o vírus.
A imagem que se forma na minha cabeça quando falo de Invasões bárbaras é parecida com aquelas imagens de microscópio que mostram a reprodução humana. Vários espermatozóides tentam fecundar o óvulo. São muitos milhões. Se jogam contra a parede sem dó. Um depois o outro e mais outro como se fosse um batalhão com a missão revolucionária de mudar o mundo, embora de maneira estupidamente reacionária. E não importa exatamente quem vai conseguir. Importa que um, ao menos um, em milhares, consiga. São bárbaros sem nada a perder, são homens-bomba numa missão terrorista. Todo bárbaro é doce no seu intuito.
Da última vez que cheguei em casa perdidamente apaixonada, mal entrei e fui correndo pegar meus livros. Claro que isso é porque eu sou uma pessoa nerd que sofre de certo grau de autismo. Mas tb pq em algumas semanas seria o fim do semestre e eu não teria a menor condição de estudar. Como uma vaca indo pro abate, abri meus livros e docilmente esgotei a matéria. É que nessa vida de apaixonada-que-se-joga a gente aprende alguns truques. Sim, sempre se aproveita alguma coisa, só não sei responder se vale à pena. Esse comportamento militante resignado de sobrevivência em tempos de guerra é uma dessas coisas. É como a última carta do suicida ou o ato político do terrorista: um sentido maior é preservado para a posteridade. Alguma parte mínima de si passará adiante em caso- muito provável- do naufrágio iminente. E eu já sabia o quanto eu estava fodida.
Apaixonamento neste grau é chave de porta de cadeia. Ele, a esta altura, também já sabia o quanto estava fodido e queria, burramente como nós sempre fazemos, salvar algum mísero pedaço de si mesmo do impacto. A gente tem esses pára-quedas de emergência imbecis e nessa hora, cada um aciona o seu como pode. O dele abriu largo e violento, fazendo um vácuo enorme ao seu redor. Talvez eu nunca devesse ter insistido e tudo ficasse bem na memória, para sempre. Mas quem resisite aos apelos da carne? Esta é a fraca, dizem.
E eu fui. Mais uma vez a porta transcedental deste universo paralelo meu e dele se abriu com muita facilidade qd a gente se encontrou. Eu não me lembro do tempo e nem da ordem das coisas. Eu não me lembro dos lugares. Eu me lembro de uma sucessão ininterrupta de cenas de amor, insights, sexo e felicidade. Eu me lembro de ter dormido a noite toda agarrada em alguém, na vida. Eu me lembro que a gente tinha sono e fome e tesão de modo sincronizado mas eu nunca sabia que horas eram. Eu não sabia em que cidadade eu estava, não fazia a menor diferença. Eu não me lembro dos móveis, nem dos carros e nem dos restaurantes. Eu me lembro de rir até chorar e de chorar até sorrir. E de sentir muito calor e tomar muitos banhos embora nao sentisse necessidade. Podíamos ficar ali, suados e mal-cheirosos, não era incômodo nenhum. Era tudo nosso.
Dizem que a experiência de amor contemporânea é isso: um mosaico de vivências extremamente intensas e que de tão intensas, deixam rastros destrutivos. Ficam flutuando de modo esquizofrênico porque a gente não consegue alinhavá-las num sentido subjetivo no tempo. É faísca demais não há tempo ou habilidade de reunir as peças e fagulhas e construir uma família, um castelo de areia, uma historinha romântica ou o que quer que seja. Elas explodem antes, infladas de si mesmas. Eu sinto exatamente assim. Mas eu devo dizer que me custa escrever admitindo-o. Eu não queria me reconhecer. Não sou contemporânea e acho que eu morreria se preciso fosse, contra a contemporaneidade.
Eu não quero ser contemporânea, eu prefiro ser a semente de resistência. Pensando bem, talvez eu morra por essa causa. Eu sou do tempo em que a gente morria por amores e causas. Mas a contemporaneidade não tá nem aí pras minhas causas nobres. Ela atropela mesmo, ela não é do tempo em que um jovem parava o tanque de guerra com seu coração. Não, isso entrou no moedor de carne contemporâneo: tanto faz. Morra pelo que quiser. Gente é que nem biscoito, perde-se um e ganham-se oito. Experiências transcendentais, amores líquidos? Sempre há um na próxima esquina e se não houver, haverá uma droga potente que reproduza a sensação. Tudo é reprodutível, exaustivamente conhecido. Está tudo dominado. A memória, a gente lobotomiza. A morte, a gente boicota com clones. A sexualidade, a gente estereliza. Tudo que a gente pensa, protesta, reivindica sai fraco e distorcido, parece cacarejo de galinha.
Não sei como, mas não, eu não quero ser contemporênea embora esteja mergulhada na comtemporaneidade até o último fio de cabelo. Eu quero ser semente de resistência, eu quero ser célula. Quero ser reacionária do amor constante. E mesmo que eu não tenha alternativa e acabe me contagiando pela compulsão de efemeridade, eu me lançarei no futuro. Sou a mulher-bomba que se joga na falta de alternativa, mas que antes, planta uma semente do amor romântico, careta, permanente, sonhado. Eu visto minha filha em roupas de princesa e a nino com contos de fada e canções de amor. Se preciso for, eu morro explodida, espalhada em mil partículas de intensidade ímpar que não encontraram destino. Mas nela, eu planto o avesso do esfacelamento. A ela ensino a constância do afeto, a confiança, o alinhavo, o sonho resistente, a persistência, o amor forte de mãe.
Por ela estou pronta para detonar meus constructos teóricos, grupos e mazelas contemporâneas, inclusive eu mesma. E estou pronta a não detonar coisa alguma, se isso for a grande sedução da contemporaneidade, eu renuncio. Eu viro burocrata do amor. A contemporaneidade me picou, mas não vai levar minha alma. E como ouvi uma vez de um paraplégico: Inside, I keep dancing.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
O Amor é possível - e nada mais.
Hoje acordei às 4 da manhã e não consegui mais dormir.
Meu peito doía tanto, de um dilaceramento tal, que eu tinha a impressão que consolo nenhum jamais embalaria aquela dor.
A dor é sempre a mesma. Às vezes está mais remediada, esquecida, acalentada. Mas é a velha conhecida dor da falta de cada um.
Daí tem essa coisa de amor.
Eu acho que o que dói mais ainda é saber que o amor é irremediavelmente maior que a gente. Ele não é feito para preencher a falta de ninguém, embora, casualmente, possa fazê-lo. O amor é coisa dos Deuses e não nos pertence. Nada vai dar cabo dele. Nenhuma grande tragédia humana, nenhuma intenção de controle ou impedimento, nada que possa ser feito por nossas mãos hesitantes. O amor é daquele tamanho que a gente encontrou naquela fração de segundos de luz. Às vezes pode aumentar. Mas não diminui jamais, não importa o quanto nossas carcaças humanas toscas e mal acabadas se esforcem para nublá-lo, sujá-lo, escamoteá-lo, maculá-lo. Lá está ele, vivo e brilhante, sem caber em lugar nenhum dos nossos toscos corpos, arrombando.
Eu devo ao meu ex-marido muitas coisas, muitas. Mas a principal seja talvez essa lição de que o amor é possível - para bem e para o mal. É possível dar e receber amor reciprocamente, é possível ser feliz, ter paz, um lar, uma família, se não pra sempre, por bastante tempo . É possível, mas isso também significa que é só possível: dentro dos nossos limites momentâneos. O amor que vivemos nos nossos anos de casamento e namoro me curou, um pouco. E essa cura ainda produz efeitos em mim. Ela me ensina que não importam nossas teimosias humanas, nossas configurações de desejo, tempo. Nossos orgulhos bestas, nossos pequenos dramas. Nada disso importa e tudo tem que baixar a cabeça e abrir passagem porque o amor escolheu a gente mas não é pra ser feito do nosso tamanho. Ele é do tamanho que ele é, nós que encontremos a melhor maneira de comportá-lo dentro de nós. Ou não. E às vezes- muito mais do que deveríamos- é não mesmo.
Acordei chorando às 4 da manhã e bem pequenina e humilde, do tamanho que a ferida de amor aberta faz a gente ficar, e fui salva pelo meu ex-marido. Pedi ajuda quase instintivamente e ele veio prontamente, com aquele amor tranquilo e forte dele, que sempre me recolhe e sempre me segura. Abdicou de um dia de trabalho- eu sempre admirei isso nele- e levou a gente, Inês e eu, pra passear e assim ficamos, silenciosos e entretidos com nossa filha e suas demandas, enquanto as horas de um dia difícil ficavam menores. Depois tudo ficou menos cruel, o mundo todo me parecia menos desolador.
E Graças a Deus que nosso encontrou existiu, nosso amor teima em reverberar e que nós nos sabemos criaturas muito mais complexas do que uma simples saga de mocinhos e vilões. Não, nós não somos dessas pessoas unívocas e nossos caminhos- tanto o meu quanto o dele- tem muitas nuances e bifurcações. Que bom que ele saiba quem eu sou e que saiba até, sem nada ter sido dito, que eu estou triste por causa de outro amor. Que bom que ele não pergunte nada, que bom que ainda doa conversar sobre certos assuntos. Que bom que ele me dê um beijo na testa e me diga que este ano tudo vai melhorar.
Que bom que não tenhamos vontade de ser mais do que isso que já somos um para o outro.
Que bom- e ufa, que difícil!- que o amor seja maior do que nossos projetos humanos mesquinhos.
À quoi ça sert, l'amour?
L'amour c'est rien, sert à rien. On peut le donner.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
O Tao do Facebook ou Um Romance contemporâneo- Primeiro Ato
A gente se encontrou pelas redes sociais na maior obra do que alguns chamariam de destino e outros, chamariam de azar ( mais propriamente hasard, a palavra originária que significa acaso). Um clique me levou ao blog dele. Outro, e ele achou o meu. E como o nome rede já diz, tínhamos "amigos" em comum. Aí puxei papo de chat. Não que isso seja alguma coisa raríssima pra mim. Eu puxo papo virtual com todo mundo, forço a amizade e quase sempre o resultado é gratificante. Eu puxei, mas o interessante é que o papo desenrolou fácil. No primeiro minuto. Aconchegante, divertido, gostoso, sexualizado. E não que eu seja má, mas já avisei que sou macaca velha em chats despretensiosos que acabam sendo incríveis. Eu achei ótimo mas não fico assim tão impressionada.
Eu não me lembro bem quanto tempo exatamente durou essa parte virtual, mas sei que foi muito pouco. Os papos eram incríveis, intensos, não tinha desperdício de linha. E o cara queria me ver, desde sempre. E eu, que nunca recuso qualquer possibilidade remota de tornar a vida um pouco menos tacanha, comprei a idéia. Quando concordei, pensei: ok, eu vou pra São Paulo, como bem, faço compras e tomo um café com o cara. Mas não sabia como ou qd isso seria possível. Daí me veio um Exu qualquer e eu pensei, bom, mas se o cara quer mesmo me ver, porque ele não vem a Brasília? E quando o convidei, foi meio imaginando que NINGUÉM viria a Brasília tão facilmente quanto iria a São Paulo. Mas ele topou imediatamente e e ainda disse "eba". Aí nessa hora, o cara ganhou minha atenção. E ele ainda replica assim: pode ser depois de amanhã? E você pensa que tem que fazer depilação, unha, cabelo, emagrecer 3kg e todas essas coisas, mas eu, que sou uma pessoa esquisita que nunca nega fogo, mandei um "Claro".
No dia que ele ia chegar aconteceu uma confusão enorme. Ele perdeu o vôo e teve que fazer uma escala super trabalhosa para chegar aqui. E só então- enqt a gente conversava virtualmente nas horas de espera no aeroporto- eu descobri que havia outra confusão: a tal amiga em comum, não era só exatamente uma amiga e estava surtada- com toda razão- em outra janela virtual. Eu acho que deveria ter dito " deixa ela pra lá, dá um fora nessa doida", mas não sou mais tão histérica. O que pensei foi: 1) Ok, eu nunca vi essa minha "amiga" do facebook, mas ela é a melhor amiga de uma grande amiga minha; 2) Minha grande amiga está entre as 10 pessoas boas deste mundo, por que a amiga dela não estaria tb?; 3) Se ele de fato não quer nada com ela- o que já é estranho, afinal é uma das 10 pessoas boas do mundo segundo a minha teoria-, por que judia da moça deixando ela correr atrás? Sempre desconfio desses cafajestes acidentais que nunca dizem não. Se o cara faz isso com ela, não fará diferente comigo. Ponto final.
Uma hora ele chegou. E eu, em jejum nervoso e tremendo dos pés a cabeça no saguão do aeroporto- pq é MUITO difícil encontrar pessoalmente um paquera virtual que já vem com tantas expectativas- , não me impressionei. Não rolou mágica que correspondesse às conversas, e que aliás, deixa eu avisar logo, nunca rolaria porque o virtual e o real só se triscam. Não rolou no aeroporto, não rolou no restaurante, não rolava, eu só queria saber onde eu encontrava o cara da internet. E não tem nada a ver com beleza ( até porque, eu achei ele bem lindo sim). Achei que ele era frágil. E caótico além do que eu suporto ( e eu vou longe). E não que isso seja um defeito, muito pelo contrário, mas pra onde quer que eu olhasse, eu só via feridas num cara que nunca deixaria ninguém chegar perto o suficiente pra curá-las. A dor e o caos são as verdadeiras resistências dessa vida. É uma espécie de controle máximo, pq se tudo doer e não houver ordem ( e progresso!) nenhuma, pimba- nunca pode piorar. Eu tenho uma sensibilidade enorme para detectar essas coisas, que já era minha, mas que foi lapidada em anos de prática clínica. Mas meu veredicto foi: Amor não é nada, a gente sempre pode dar um pouquinho. E de qualquer forma uns amassos nunca tiraram pedaço de ninguém, né?
Pois é, deixa eu avisar também: amasso super tira pedaço da gente. Teve alguma coisa que explodiu na nossa pele e vou explicar direitinho pra ninguém ficar achando que é "química". Não é. É qd alguém toca a gente exatamente naquilo que não está na pele, nem no papo, nem na racionalidade. Está muitas camadas mais profundo. Ele beija como eu: como se empenhasse a vida. Como quem não tem o que perder. Como quem acredita. E nessa hora, exatamente, eu compreendi que aquilo ia doer. Ele não é dos que se rendem e um dia começam a ter algo a perder. E eu, todo mundo aqui já conhece, né? Eu sou a mãe de família canceriana mais convicta do universo.
Daí que foram dias ótimos. Um campo de energia incrível se formava quando estávamos juntos. Um calor, uma luz. Eu nunca acreditei ( ou desacreditei) nessas coisas mas eu praticamente podia cortar com a faca aquela luz que a gente criava juntos. Eu sentia o amor me preenchendo por dentro feito hidratação em pele velha. Era uma coisa de expandir a alma. Assim, sem nenhuma razão cabível. De graça, só porque a gente tinha muito amor pra dar e aceitava receber. Só porque era bom como estar em algum céu.
A história continua, mas não digam que não avisei que não há final feliz. E não muito infeliz, por certo.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Felicidade não clandestina.
" Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais." (Clarice Lispector in Felicidade Clandestina)
Esse é um dos trechos de Clarice que mais mexem comigo, desde menina.
E é desde lá que tenho esses dias de desgosto de mim mesma.
Não tem jeito, um dia a gente olha pra trás e só vê perdas e destroços. E aí eu penso: não pode ser coincidência. É tudo culpa minha, eu sou um desastre mesmo.Tenho tantos mais defeitos a acrescentar na lista dela...
Felizmente - ou não - isso acaba passando. Antigamente isso passava meio randomicamente, porque coisas boas, de acordo com a lei das propabilidades, acontecem na mesma proporção que as ruins, e ficava elas por elas.
Mas hoje eu tenho um compromisso de atitude quando me sinto fodida. Eu fecho os olhos e peço a Deus que, se eu tiver errado, eu quero mudar e não me importa o quanto vá doer perceber minha pequeneza. O meu pacto é com o crescimento.
Eu, hoje, acho que posso suportar que me digam tudo, desde que por amor. Porque não tenho trato com a estagnação, a morte, a repetição.A dor que não suporto mais é a violência estéril comigo mesma. O peso da culpa, o abandono silencioso, os argumentos imaginários que não puderam encontrar interlocução e ficam vagando dentro da gente feito alma penada. Isso, não.
Nem sempre a gente merece mesmo. Mas a gente pode aprender a merecer, se escolher.
Eu nunca esqueço de uma palestra esotérica que assisti uma vez em que a guru dizia: aceitem que a dor no peito é de expansão. É para comportar, é para caber.
Hoje meu peito dói, dói. E eu gosto de pensar que meu coração está crescendo, é o único consolo. E onde cabe tanta dor, há de caber felicidade do mesmo tamanho.
Tem uma música que eu e a Inês aprendemos na creche dela em Genebra e até hoje é uma das nossas preferidas:
" No tempo que eu era só/ e não tinha amor nenhum
Meu coração batia mansinho: tum. tum. tum
Aí veio você, o meu amor número 1
E o meu coração pôs-se a bater: TURUMTUMTUMTUUM".
Sempre fortalecendo o coração, na esperança de que ele mereça mais.
Esse é um dos trechos de Clarice que mais mexem comigo, desde menina.
E é desde lá que tenho esses dias de desgosto de mim mesma.
Não tem jeito, um dia a gente olha pra trás e só vê perdas e destroços. E aí eu penso: não pode ser coincidência. É tudo culpa minha, eu sou um desastre mesmo.Tenho tantos mais defeitos a acrescentar na lista dela...
Felizmente - ou não - isso acaba passando. Antigamente isso passava meio randomicamente, porque coisas boas, de acordo com a lei das propabilidades, acontecem na mesma proporção que as ruins, e ficava elas por elas.
Mas hoje eu tenho um compromisso de atitude quando me sinto fodida. Eu fecho os olhos e peço a Deus que, se eu tiver errado, eu quero mudar e não me importa o quanto vá doer perceber minha pequeneza. O meu pacto é com o crescimento.
Eu, hoje, acho que posso suportar que me digam tudo, desde que por amor. Porque não tenho trato com a estagnação, a morte, a repetição.A dor que não suporto mais é a violência estéril comigo mesma. O peso da culpa, o abandono silencioso, os argumentos imaginários que não puderam encontrar interlocução e ficam vagando dentro da gente feito alma penada. Isso, não.
Nem sempre a gente merece mesmo. Mas a gente pode aprender a merecer, se escolher.
Eu nunca esqueço de uma palestra esotérica que assisti uma vez em que a guru dizia: aceitem que a dor no peito é de expansão. É para comportar, é para caber.
Hoje meu peito dói, dói. E eu gosto de pensar que meu coração está crescendo, é o único consolo. E onde cabe tanta dor, há de caber felicidade do mesmo tamanho.
Tem uma música que eu e a Inês aprendemos na creche dela em Genebra e até hoje é uma das nossas preferidas:
" No tempo que eu era só/ e não tinha amor nenhum
Meu coração batia mansinho: tum. tum. tum
Aí veio você, o meu amor número 1
E o meu coração pôs-se a bater: TURUMTUMTUMTUUM".
Sempre fortalecendo o coração, na esperança de que ele mereça mais.
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