Eu gosto muito de gente, por isso sou talentosa na minha profissão.
As pessoas me comovem e eu tenho muito amor por elas. Eu me interesso, me preocupo, estudo sempre a melhor forma de ajudá-las. A história que configurou a subjectividade de cada um, os pactos de amor que nos salvam e nos condenam. É tudo tão lindo e triste e por isso mais lindo ainda, que não é sacrifício nenhum.
De modo que eu sou uma pessoa facinha, em geral. Não é difícil eu gostar de alguém. Eu nutro profundos respeito e simpatia pela grande maioria de formas de configuração humana. Só não sou ainda mais fácil porque sou muito ocupada e não me refiro ao tempo. Eu sou muito ocupada pelos meus interesses, que são muitos, e pela minha personalidade ligeiramente autista. Mas dentro dos meus limites, sou muito disponível. Aberta, amorosa, não tenho falsas expectativas, não condeno. Eu tenho amor pra dar.
Isso me coloca em situações curiosas. Às vezes eu ouço coisas como: Mas menina, para de sofrer, o que você viu neste sujeito feio, pobre, arrogante, imaturo e que não te merece? Eu não vi, certamente, nada disso que as pessoas procuram ver. Eu vi uma pessoa apaixonante. E no nosso encontro, deu vontade de estar junto. A vontade de estar junto de alguém pra mim é um valor que se basta. Tem gente que me dá vontade de ficar em casa sozinha com meus livros. Tem gente que me dá vontade de estar junto. Não porque são lindas, brilhantes, fodonas. Mas porque tem liga, o nosso papo dá jogo, os nossos corpos se entendem. É bem simples. Eu sou simples, amar é fácil. Mas eu sou minoria.
Eu sou minoria porque as pessoas tem muitas expectativas mal-elaboradas sobre o mundo, sobre si mesmas e sobre os outros. Elas esperam, por exemplo, que o outro não lhes tire a liberdade e lhes faça felizes. Elas esperam se encaixar em padrões de comportamento e valores e que os outros também o façam- às vezes até, salvando-as de suas próprias desconformidades. Elas não entenderam que os padrões são como as estatísticas: não existem.
E outras vezes, fico numa posição desconfortável comigo mesma. Eu tomo tocos inacreditáveis. Eu sofro horrores. E sofro tanto que me perco um pouco, esqueço de estranhar. Deixo de estranhar por exemplo, o fato de um marido deixar o barco com a esposa e um bebe recém-nascido. Deixo de me envergonhar pelo cara que parece tão doce e humano, mas é capaz de se comportar como o mais chauvinista dos machões pré-históricos. Esqueço de reclamar dos fodões que acham digno tirar o corpo fora sem mais, depois de receberem meu afeto que, sem falsa modéstia, não é coisa pouca e transforma qualquer pessoa.
E isso não é certo. Eu me envergonho desses caras. E mais de mim, que consigo compreendê-los e naturalizá-los. Eu, depois que fui mãe, sempre me pergunto: mas como este sujeito faz isso sem pensar que a mãe dele vai morrer de desgosto? Ou que lhe daria uma bela surra se soubesse? Ou pior: que algum outro cara igualmente sem culhões pode fazer exactamente a mesma coisa com a mãe DELE? Se eu fosse Renato Russo eu diria: " É preciso amar as pessoas como se fôssemos suas mães. Porque se você parar pra pensar, na verdade nós somos". As mães morrem. As esposas ficam de saco cheio. As filhas tem que cuidar de sua carreira. Todo mundo quer amor. E quem vai dar? Nós. Só tem a gente aqui.
Claro que eu caio em mim em algum momento e um sujeito desses até pode ter tentado, mas nunca se criou comigo. Pouco amor é bobagem que eu não encaro muito tempo.Talvez eu esteja precisando frequentar as reuniões do amor exigente pra fazer isso mais depressa. Porque, seriamente, a vida é agora: não dá pra ficar dourando a pílula desses caras. Vamos cuidar dos jardins alheios.
