Eu tenho pensado ultimamente em algo que até pouco tempo me era uma idéia repulsiva: alfabetizar Inês numa escola bilíngue.
Na verdade, desde que minha vida mudou drasticamente e eu voltei a ter uma vida de "gente comum", eu venho reavaliando minhas opções, à medida que a realidade nova se acomoda e se sedimenta sobres os escombros da antiga.
Eu penso que uma das grandes maravilhas da minha vida, e certamente uma válvula de escape sem a qual eu teria enlouquecido em muitas situações, é falar igualmente bem tanto inglês quanto português. Não estudei em escola bilíngue mas como eu era uma criança especial, tinha este benefício de outra forma.
E tal qual Anna O. e outras famosas pacientes de Freud, em momentos de crise ou estresse insuportáveis eu, ao invés de arrancar os cabelos, vomitar, me jogar de prédios, apenas ligo o mode "maura inglesa". Porque esta é a diferença fundamental de aprender uma língua de maneira precoce: vc não aprende a língua, você cria uma personalidade que é coerente com aquela língua, ou seja, você inventa um você que fala inglês e que vai trazer novos laços afetivos, memórias que consolidarão sua persona estrangeira. E este alter ego me serve, várias e várias vezes, de refúgio, de acolhimento e de consolo em momentos de dor extrema.
Dizem que Berta Pappenhein ( o nome verdadeiro de Anna O.), no fim da vida, havia mesmo esquecido sua língua materna e falava outra, como se fosse sua. Que confortador imaginar que, se vc fois abusado pelo seu pai na infância, sofreu misérias, passou fome e psiquicamente isso se tornou algo insuportável na sua subjetividade, vc pode contar com seu eu estrangeiro. Porque existe aquela sementinha que foi plantada lá atrás e que carrega um mundo de novas possibilidades.
Eu já tive dias absolutamente autísticos, de crise, em que eu não conseguia falar a língua da minha mãe mas conseguia me acalmar cantando para mim mesma nursery rhymes inglesas. Humpty Dumpty é uma delas e a outra, que talvez seja a minha favorita é Mary, Mary quite contrary.
Porque a Mary, mesmo sendo uma mocinha de personalidade e muitas vezes do contra, tinha um jardim onde flores cresciam, flores de diversos tipos, flores. E eu então, adolescente em meio a alguma crise adolescente imaginava que se as flores cresciam para a chata Mary, cresceriam para mim tb.
Eu achava desnecessário e até esnobe colocar crianças em escolas bilíngues mas hoje estou repensando. Gosto do método canadense, que ensina as matérias exatas e de ciências na língua estrangeira e todas as outras, sociais e humanas, em português.
E ando cogitando dar à Inês uma Mary pra chamar de sua.


