segunda-feira, 12 de julho de 2010

Be-Lovely

Às vezes sinto na boca o gosto de alguma coisa memorável que provei.

Outras vezes - mais frequentemente- sinto nitidamente o cheiro dos lugares onde morei, assim de súbito e avassalador, como um flashback de ácido. O cheiro de curry e chá preto que incomoda a gente nas caminhadas pelas ruas menores de Londres, o cheiro refrescante e limpo- cheiro de liberdade!- do gelo derretendo nos alpes suíços quando chega a primavera...O mau cheiro dos subúrbios de NY quando a neve cobria tudo por muitos dias, inclusive o lixo. O cheiro de suor dentro dos Trans, o cheiro  doce de castanhas assadas nas ruas  em meados do outono que faz a gente lembrar  que é quase natal, o fedor quente de comida podre nas ruas francesas no verão, o cheiro  acre e amargo de limão siciliano quando descemos para as praias italianas.

Outras vezes ainda tenho um flashback espacial e lembro-me dos trajetos exatos, o numero dos ônibus, a cor das placas,  a fachada das lojas, os paralelepípedos e ruelas familiares que eu seguia cotidianamente nos meus percusos a pé, tudo, cores, sons, vizinhos irritantes e bacanas, crianças e animais da vizinhança.

Com tantas lembranças boas eu me pergunto ( e me perguntam muito)  se sinto saudade do meu ex-marido e do nosso antigo estilo de vida. E eu me escrutino inescrupulosamente para obter a resposta.

E a resposta, meus caros, é a seguinte: Não, redondo e sonoro.

Acho que o mundo é nosso, a todo hora e a qualquer momento. Acho que sendo estrangeira aprendi a valorizar o que me é familiar e nacional de um modo que gente que nunca experimentou a clandestinidade de se saber estrangeiro jamais saberá. Eu sentia uma solidão e uma dor no peito que eu atribuia à saudade da minha família, mas não era só isso. A saudade que a gente sente é de pertencer, de se saber em casa, de ter planos a longo prazo, de raízes. Aprendi a gostar da natureza, do nosso povo otimista e ingênuo, da malevolência, do país do futuro que tem tanto a ser construído. Relativizando, a gente percebe como tudo tem seu preço, até o desenvolvimento.

E se a vida já me deu tanto até aqui, não pode voltar atrás. Tudo só muda para melhor na vida, já repararam? E coisa boa é não perder tempo ao lado de quem não quer estar com a gente, repetindo eternamente nossas experiências de desamor, convencendo- inutilmente- o outro de que somos amáveis. Essa é a grande falácia dos desencontros amorosos, que custa a passar e sempre me pega: não somos menos porque alguém que amamos decidiu seguir outro rumo. Somos outros.

Sou canceriana,  amorosa, boa mãe, boa filha, boa irmã, boa amiga. Sou jovem, ajeitadinha, inteligente, sensível.

I am lovely. Doubts, no longer.

Next, if you please :)

2 comentários:

  1. você é muito especial amiga. acho também que viveu muita coisa legal na vida, mas tenho certeza absoluta que vai ser melhor daqui pra frente. beijos

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  2. Difícil não sentir saudades desses lugares, mas como vc mesma disse, só estando fora e morando por um tempo pra gente saber dar valor ao nosso país...

    Vc é sim "lovely"!

    Beijos

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