Hoje saí pra caminhar com Inês, como faço todos os dias, no começo da manhã e/ou no fim da tarde.
E havia um pássaro morto no meio do caminho. No meio do caminho, havia um pássaro morto.
Uma visão corriqueira, pra quem mora onde moro. E a não ser pelo fato meio desagradável de ter que discursar para uma criança sobre a morte, a coisa não teria nem me chamado atenção. Mas a cena me causou uma angústia fora do comum. Tentei dar um sentido a minha angústia pensando: "Poderia ter sido eu". Mas isso apenas não apaziguou meus pensamentos e aquela imagem tão ordinária insistiu em manter-se evidenciada no meio de todas as coisas que passavam pela minha cabeça. Pensei mais além: "É que este passarinho sou eu". Sim, ele dizia algo do meu desejo e admití-lo deu cabo da angústia. E também deu lugar a um cansaço atômico, que contaminou cada pedacinho do meu ser. Senti pena de mim e me pûs no colo um cadinho, ando meio judiada.
Invejei a condição do passarinho. Que trabalheira a nossa, morrer sem morrer. A gente morre tantas vezes e precisa se renascer que é melhor ficar longe de qualquer coisa remotamente similar a uma carniça. Pra evitar cobiçar a idéia de esticar as canelas e descansar tb.
Como já dizia o poeta Gil, e antes dele, mestre Freud: " Porque sou muito, muito vivo e sei que a morte é nosso amor mais primitivo".

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