sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Eu sou bonita, desculpa?

Até uma certa idade na vida, tudo que a gente quer é ser bonita. E, como beleza é um conceito felizmente muito amplo, apesar de todas as tentativas de restringí-lo, vamos definir o que eu chamo aqui de bonita: atraente ao sexo oposto, nos moldes do que a sociedade valoriza.
Sim, aos 5 anos a gente quer ser a Cinderella e não se envergonha disso. E quando perguntam o que a gente vai ser quando crescer a gente declara logo: Modelo ( no meu tempo, dizia-se "Miss"). A gente veste um vestido rodado, coloca maquiagem, pinta as unhas e se olha no espelho exatamente como fizeram as egípcias 4000 anos antes de nós. E exatamente como fazem as meninas de hoje.
Aí um dia a gente desiste desta missão impossível ( a de ser bonitona) por uma das duas vias: ou a gente se convence de que é bonita e fodona, mesmo, e para de tentar convencer qq ser humano desta verdade irrefutável e vai cuidar de outras coisas na vida; ou a gente é daquelas que vai ser cool, intelectual, descolada ou qq coisa dessas e vai dizer que não liga para os códigos sociais de aparência. E isso é verdadeiro, pelo menos eu acredito que seja possível. E mais: eu acho que são duas opções éticas igualmente legítimas, diferenciadas apenas pelos determinantes existenciais. Eu acho isso MESMO. Aliás, se tem uma coisa que eu prezo é a liberdade de desenvolver sua opção ética com a estética que você preferir ou conseguir. Você, enquanto subjetividade única, tem direito a isso.
Só que acontece que lá na frente, eu que fiz a minha escolha baseada nas minha vivências pessoais, naquilo que minha estrutura psíquica e cultural comportava, e respeito a dos outros, porque assumo que o mesmo se deu do lado de lá, vou ser simploriamente circunscrita. Eu não posso ser intelectual. Eu não posso ser alternativa. Eu não posso ser libertária, politizada, depravada, descolada, poliglota.  Não posso também ser amiga, companheira, sensível e forte. Não posso, porque lá atrás eu escolhi ser, bem... mais uma menina bonita. E tenho que escutar que discrimino as pessoas pela aparência e sou superficial. Ah sim, isto é lógico e muito justificável: eu sou bonita. E ainda que meninas espertinhas e descoladinhas possam ser eventualmente bonitas, uma menina bonita nunca pode vir a ser uma coisa radical, coitada. Olha bem, ela  já é bonita, não tá bom? Bem, estaria em qualquer espécie do reino animal, mas nós somos criaturas extremamente insatisfeitas e desejantes.
E então, chega aquela altura da vida em que não, você não quer mais ser bonita. Você não usa maquiagem, não veste roupas justas e nem corta o cabelo. Você usa óculos e olha para o chão. Você precisa, mais do que tudo na vida, convencer as meninas fodonas ( pq são elas quem, no fundo, mandam no mundo já que: 1. são mulheres; 2. os homens não se sentem ameaçados por elas) de que você não é só um rostinho bonito. Você é gente. E até talentosa. E nem tente o caminho da argumentação: as meninas bonitinhas sempre tem esse discurso batido de que tem um coração. Ninguém vai comprar seu drama barato e isso é muito justificável, afinal: você é bonita, sofra.
Só que eu já fui com o milho, voltei com fubá, levei o bolo e tô agora buscando os farelos. Já fui bonita, já não fui, já me achei linda e já não me achei. Isso já foi importante e já não foi. Se eu disser que não me acho bonita ou que a beleza tenha sido dispensável em algum momento da minha vida, acho que estaria dizendo algo infantil. eu acho beleza muito bom. Eu gosto de gente bonita ( ainda que, pra desgosto de muita gente, o meu conceito de beleza pessoal- que eu me dei ao luxo de desenvolver no dia que entendi que essa coisa toda de beleza era muito óbvia- seja bastante excêntrico), eu gosto que me achem bonitinha, isso me deixa segura, isso me permite ir além. Essa é minha estrutura subjetiva, eu não dou conta de outra coisa. E nem quero. Prefiro que eu possa passar como se fosse qq menininha lindinha e fofinha do mundo. Porque, isso é o que eu de fato sou e essa é a grande sacada: vai chegar um dia na vida em que não vai nos sobrar nada além de fatos. E você vai se agarrar a eles, com unhas e dentes. Porque todos esses conceitos menos generalizáveis: cool, intelectual, fodona, hippie, desapegada, alternativa vão virar areia fofa sob seus pés. Basta você mudar de país, de carreira, de círculo social. E você vai querer ser só a coisa mais obviamente agradável da forma mais primitiva possível porque sim, nós somos animais altamente primitivos movidos a sexo e  raiva.
E assumindo- como eu assumo de coração- que todo mundo pode ser bonito, se assim escolher e se a isso se dedicar, vocês vão me desculpar, meninas: eu sou bonita e acho que todo mundo devia ser também. É fundamental ( no sentido mais radical do termo).


Um comentário:

  1. Maura, acho que o fundamental é se sentir bonita. Duvido que tenha algum ser humano que não gosta da sensação de se sentir bonito... e admitir isso é difícil, né? Porque os padrões de beleza da mídia são tão inalcansáveis, que tem gente que prefere reprimir o desejo de ser bonito... enfim, achei legal o texto, porque a parte de que as outras qualidades somem quando vc muda de lugar é algo que eu não tinha pensado antes... e é tão verdade!

    Beijos

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