terça-feira, 9 de novembro de 2010

Dê.

Eram mais ou menos três e meia da tarde e eu tinha prova de Teorias e Técnicas Psicoterápicas no dia seguinte. A professora, uma argentina, além de não falar português ainda estava planejando seu casamento: bolos, flores, vestidos eram tema da aula, e que não ajudava muito a entender técnicas de psicoterapia. Isso e o fato de que frequência nunca foi meu forte me deixaram sem saída: já eram três e meia da tarde, aquele horário fatídico em que não dá para ter feito muito mas tb não dá começar mais nada, e eu tinha que estudar, muito ainda.
Não obstante, o telefone tocou e era ele. Não foi exatamente uma surpresa, já que tínhamos trocado uns beijinhos na última festa. Mas eu queria ser a namorada dele e fiquei muito emocionada. E ele convidou na lata: "Vamos a um show de blues hoje à noite? Já tenho os ingressos". Putz. Eu era muito novinha pra ser mais maliciosa. E o que eu disse foi: Não posso, tenho prova amanhã e preciso estudar. Claro que ele achou que eu estava mentindo. Claro. E eu desliguei o telefone e sofria tanto que não conseguia estudar. E o pior: eu não tinha o telefone dele para me redimir, para dizer que sim, eu aceitava ser uma menina má por ele, só por ele.
Mas a vida às vezes é um troço  inexplicavelmente generoso. E o sujeito, num ímpeto de generosidade, me ligou de novo, pra saber se eu não queria MESMO ir ao tal show. Graças. Ele veio me buscar em casa, me lembro que chovia muito e que eu não me atrasei. Entrei no carro e sei lá. O que foi aquilo? Um raio, um caminhão desembestado, uma alma penada? Eu já o tinha visto outras vezes, já tinha até o beijado. Mas alguma coisa clicou ali, naquela hora. Algum pacto de sangue em outra vida, alguma flecha de cupido em outra esfera.
E ele dirigia e a gente não parava de falar, um assunto puxava o outro, falávamos rápido, eufóricos e com chama nos olhos. Na metade do caminho decidimos que não íamos a show nenhum. Quem precisa destes pretextos? E sentamos numa mesa de bar.
Eu me lembro que tomamos chopp e falamos de muitas coisas interessantes. Planos, filosofia, rock, religião.  Mas o que eu me lembro mesmo eram daqueles olhos vivos sobre mim. Ávidos porém tranquilos, grandes, acolhedores, fortes e profundos. Sim, um par de olhos pode ser tudo isso. E eu não sei direito em que termos foi a decisão- acho que a síndrome fatal de boa menina atacou novamente e eu disse que tinha prova no dia seguinte e precisava voltar pra casa- e rumamos para o carro. Daí eu entrei, daí ele entrou. E até hoje acho que este instante é o mais certo de aparecer naqueles minutos de flashback que, dizem, antecedem a morte. O que houve ali não é coisa deste mundo. Ou, é deste mundo de um tanto que não podemos captar com nossa mania racionalista.
Ele me puxou para o colo dele e o beijo demorou uma vida. Um beijo que não acabava nunca porque a gente se esqueceu que existia algo no mundo chamado acabar, separar, individualizar. Eu me lembro de- nos poucos momentos em que pensei- me sentir leve, envolvida, o corpo parecia tão adequado, dançando suave alguma coreografia muito familiar. As roupas sumiram rapidamente, mas não foi violento como o desejo que queimava a gente: ele desabotou lentamente e com uma veneração quase santificadora  cada um dos meus botões.
Sim, era o  nosso primeiro encontro e claro que como uma portadora crônica da síndrome da boa moça isso cruzou a minha cabeça. Ele vai achar que eu sou uma vagabunda, etc, quem é que transa no carro estacionado numa quadra comercial no primeiro encontro?  O negócio é que sou, desde sempre, uma boa moça muito da sem-vergonha  e dou cabo destas censuras com o seguinte e polivalente argumento: se ele achar que eu sou fácil e vagabunda, tudo bem, pelo menos me diverti. Fim.
Além de que, eu nunca entendi esses caras que chamam mulheres de vagabundas. Os homens devem se sentir lisonjeados se uma moça aceita transar, anyway.  Porque moças são moças como eu, ou seja, as devassas, se é que existem,  somos nós. Nós e nossas eternas crises femininas e dilemas muito dramáticos. É preciso ultrapassar uma cultura machista e a auto-estima furada ( bem como a calcinha, muitas vezes) para arriscar o dar, verbo intransitivo. E isso, meu caro, já é coragem que muito marmanjo não vai reunir numa vida.
Então eu, a boa moça devassa, estava lá, nua e sem nenhum arrependimento. Nem sombra. Estava gostando muito e, pra falar bem claramente, é difícil gostar tanto assim. Não é todo sujeito que te inspira assim, sabe? Para uma mulher, estar tão disposta a trocar tantos tipos de fluidos biológicos diferentes sem nenhum tipo de frescura, salamaleques ( que eu gosto muito), é um mérito só.
Então aconteceu. Neste dia e também em muitos outros dias nos 6 anos seguintes. Muitas e muitas vezes, sempre empolgadas. E me alegro em engrossar a estatística da vagabundagem de moças casadoiras. 
Não, é bem verdade, a gente não se casou. Não sei bem porque, mas acho que deve ter relação com a pouca idade aliada ao excesso de tesão, ciúme, dramas mexicanos regados a suor, lágrimas e tantas outras umidades...
Mas até hoje fecho os olhos e me lembro daquela sensação mágica, transcendental, de completude, de certeza, de paz, daquela madrugada dentro de um fiat uno em um estacionamento. E isso é um dos pilares que sustenta a mulher sensual ( sim, eu tenho coragem de me dizer assim) que hoje eu sou. E volta e meia me ocorre:  já pensou se eu não tivesse sucumbido? É que, como eu disse lá em cima, a vida quando dá pra ser generosa, arrebenta:  sucumbo e nunca perdi meus ares de boa moça. Minhas prendas, minha doçura,  minha inteligência, minha maternalidade. Porque uma das coisas que aprendi com este episódio- só uma, das tantas que até hoje tento nomear- é que não é preciso escolher: a gente pode ter tudo.

2 comentários:

  1. Que texto lindo! Sim, podemos ser muitas, todas! Sem rótulos nem preconceitos (pelo menos da nossa parte! rs E isso já é grande coisa!)

    Bjos!

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  2. Maura, me fez lembrar de um momento assim na minha vida, que infelizmente não acabou em transa. Não porque eu não quis, mas o lugar (e a consciência culpada do rapaz, que tinha namorada) não deixou...

    Ai, ai...

    Beijos

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