sexta-feira, 5 de novembro de 2010

(for)getting real.

Acontecem duas coisas interessantes toda vez que eu conheço pessoalmente uma leitora ou leitor do blog.  Uma é que invariavelmente eu escuto alguma coisa mais ou menos assim: " Nossa, mas você é tão doce, delicadinha,  linda, etc, é uma fofa. EU IMAGINAVA OUTRA COISA". 

Isso me incomoda. Significa  que para filosofar, ou chutar o pau da barraca ou para ser racional, não se pode ser mulher. E se for, tem que ser feia e grossa. Ou uma coisa, ou outra. Estamos fadados ao raciocínio binário. Nesse caso ele se chama machismo. É tão sutil e tão arcaicamente arraigado que tenho pensado que, pra gente avançar na discussão, é preciso mudar o nome dele.  A palavra já tem um cheiro de azedo que contamina qualquer terreno. Eu voto por retomar aquela idéia de Levi-Strauss e chamar o sexismo de binarismo ou algo assim. 

A segunda coisa que acontece sempre é de, nos primeiros cinco minutos eu me perguntar: poxa,  por que não fizemos isso antes? Sim, porque não marquei um chá-bazar-brechó na minha casa? Por que não trocamos telefone, não saímos pra tomar um chopp antes? Alguns argumentarão: ah, é a distância. Mas não é. Existem aviões, telefones, video conferências. É a resistência. E a fodilhice de esquina virtual.

Sabe a fodilhice de esquina, né? Aquela que nos obriga a postar no orkut nossas melhores fotos do único dia do ano de sol e amigos em viagem linda, a dizer coisas espertinhas no twitter e a compartilhar nosso cotidiano super glamouroso no facebook. Ah, e é claro, a manter o status "busy" no MSN, mesmo que não estejamos fazendo nada de realmente interessante. A esquina agora é virtual.

Ando pensando muito nessas coisas e fico meio chateada comigo mesma. Por que compactuo com isso? Por que não abro a boca na aula pra todo mundo saber que mulher bonita pode ser crítica, inteligente e até feia e chata, que é tudo da lei? Por que não  me revolto, arranco a bunda da cadeira e quebro este computador que sim, é verdade, me angariou amigos, contatos, aprendizado, prazeres, dinheiro, fama ( cof, cof) e badalações mas  já deu o que tinha que dar e tá virando uma bizarrice sem fim? Porque não quero dar o braço a torcer ao binarismo, meu caro Watson.

Tudo bem que virtualidade não é mais coisa de nerds do bem, bons escritores desempregados e gente que está muito depois de esgotar o tempo regulamentar. Muito pelo contrário, a coisa virou de tal forma que me parece hoje um instrumento do lado negro da força. Aqui  se escondem os fascistas, os malucos não-beleza, os sádicos e, mais comumente, aquele pessoalzinho que não quer saber de ninguém, a não ser como suporte pro seu narcisismo. Sim, os fodões de esquina precisam dos baba-fodões de esquina que compram sua montagem triste e alimentam a engrenagem. E que tô afim de colocar meu bloco na rua dicumforça. Pensem comigo: onde estão os nerds do bem e a minha turma? Só podem estar na rua. Ou foram extintos do planeta e eu sobrevivi?

Mas ainda flerto por aqui, porque perder a ternura jamais. E acho que é sempre bom exercitá-la ( a ternura) em todos os níveis. Mas bora pegar um cinema, um dia de clube, uma cerveja? Ou quem sabe alguma coisa menos ameaçadora tipo um café na padoca, assim, de chinelo e sem maquiagem?

Let's get physical, people. Essa coisa de (só) teclar é de neguinho que não banca a presença. E eu sou nerd e tímida e tal mas isso, definitivamente, não me resume. O que mais sou é gente de verdade. E como um bom exemplar da espécie, eu gosto de encontrar gentes. Não era esse o objetivo?

A gente (gente!) perverte tudo mesmo.


12 comentários:

  1. Q saudades dos textos, só desculpo pq vc estava ocupadídídídíssima! rs***

    Bjos!!!

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  2. Maura, sabe que eu estava pensando nisso por esses dias? Por que diabos eu não pego um avião e vou ver uma das minhas amigas virtuais? Eu acho que é medo; medo de não gostarem de mim, medo da realidade não ser tão legal... ai, que coisa complicada!

    E sim, sou tímida também. E tenho medo de me decepcionar com pessoas. Mas o computador deveria ser um facilitador, e não um escudo.

    Gostei do texto, mexeu comigo.

    Beijos

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  3. Dáfni e Dri, vamos pegar um avião e nos encontrar?
    Vamos? Vamos?

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  4. amiga, vem na minha casa? ou na minha padoca da esquina? ou vamos no parque olhos dágua amanhã (domingo)? vamos, vamos? bjo!

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  5. Dáfni e Dri: vamos pensando no evento? Podemos escolher uma cidade que obrigue todo mundo a viajar, que tal? SP?
    Vamo que vamo!

    SrtaShirley, amiga, o parque olhos d'água está interditado mas eu vou te ligar amanhã e a gente combina um parquinho CERTEZA! saudades!
    Bjs

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  6. Beleza, SP é perfeito! Eu adoro SP!

    Eu trabalho até 23/12, então os dias que tenho disponíveis são os finais de semana. Vamos pensando em datas!

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  7. Nossa! E quem é de SP e não seria obrigada a viajar, pode? Se puder eu quero!

    PS: concordo com vc! Quanto mais pessoal melhor, não concordo com os exageros ou internet demais ou pessoal demais, a gente tem mais é que aproveitar o melhor de cada. ;)

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  8. Texto desabafo, adoro isso. Aceita um café?

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  9. São Paulo, São Paulo! Claro que pode Aline, deve!

    Marcos, eu adoro homens que me lêem, sobretudo.

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  10. Eu aconselho a todo mundo que aqui passar: nunca recusem um convite virtual para um café real. NUNCA.

    Quer dizer, só se for deste cara aí acima. Neste caso, não aceite. Ou vai se ver comigo. E eu sou má.

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