No fim dos anos 80 e 90 eu adorava shows. De quase tudo que era tipo de música, inclusive a onda axé que abduziu minha cidade. Ia em todos em que uma adolescente de 13, 14 anos poderia ter acesso morando em Brasília. Foram todos muito marcantes, naquela época os shows eram legendários. Teve aquela inesquecível e lamentável confusão do show da Legião Urbana. Teve aquele em que o Herbert Vianna voltou ao palco para o bis exatamente 8 vezes. Teve aquela Baratona no carnaval de 92 que lançou a Daniela Mercury. Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, Barão Vermelho, Capital Inicial. Finis Africa ( alguém se lembra deste? O guitarrista era meu primo de vigésimo grau). Skank, Djavan, grande Jorge Benjor.
Hoje em dia não me convide para um show. São tão previsíveis, tão similares aos "DVD's ao vivo". Nada mais de importante acontece em um show.
Eu sinto falta disso dos anos 80, já que agora é tão cool se remeter a eles. Sinto falta da improvisação, da desorganização, do amadorismo. Daquelas maquiagens over, das roupas e cores over, da ingenuidade de quem se esforçava muito ( way too hard) loucamente, no Brasil ao menos, para se inserir no mundo dos ricos e elegantes.
Hoje não. Um show é previsível. Uma foto é atomicamente editável e previsível. Um texto é instantaneamente lido em várias partes do mundo e editado em minutos. Para onde foi o ato falho? A licença poética? Aquele errinho de estimação que acabava sendo incorporado ao brilhantismo do conjunto da obra? Mas não é só isso. Além de tudo - já que mais ou menos o mundo inteiro pode ter acesso ao que fazemos ou dizemos- temos que ser cordatos, limpinhos e politicamente corretos. Não podemos nunca ser inadequados, bêbados, surtados, feios, fedorentos, arrogantes e preconceituosos ( mesmo que isso seja o mais inerente dos inerentes dentro da natureza humana).
E tem mais. Ser geek ou nerd está na moda. Quer dizer, nem o direito de sermos marginais temos mais. E aqueles que são os esquisitos desde criancinha, os legítimos mesmo? Coitados de nós. Fomos fetichizados. Outro dia, navegando pela net ao meu modo nerd de passar o tempo livre que eu finjo que tenho, vi uma fulana divulgando uma máquina ou técnica de tirar fotografias de maneira que elas fiquem desajeitadas, distorcidas, estranhamente coloridas do mesmo modo que elas ficavam na época em que, well, não tínhamos nada melhor com o que contar.
Eu acho que vou me adiantar um pouco nas tendências e lançar a moda antes que alguém me tome a iniciativa: o horroroso é o novo lindo. É, meu povo, porque já que estão afim de se apropriar dos nossos direitos, eu vou logo ocupando o meu espaço e cuidando do que é meu. Nasci loira de olhos verdes e nunca tive celulite mas exercito o meu direito de ser feia quando, com quem, como e onde eu quiser. E mordo sem nenhum eufemismo se alguém quiser destituir minhas regalias de moça feia que só fica bonita quando assim escolher.
Será, pelo amor de Deus, que alguém ainda tem alguma dúvida de que todo mundo é bonito se tiver dinheiro e acessoria? O medo da feiúra escondida no passado que nos condena é tanto que é preciso transformar os anos 80 em piada, brincadeira, tendência.
Coincidentemente, morando na casa da minha mãe, volta e meia revejo nossas fotos de família dos anos 70, 80, 90... Estávamos sempre tão mulambentos ( não existia chapinha disseminada, roupas tecnológicas e muito menos maquiagem de ponta), tão ingênuos, magrinhos ( não tinha Mc Donald's!!!), mal vestidos e ainda assim tem cada foto que me faz rir ou chorar por uns dois dias. Acho que esta é a intenção de uma foto, não?
Voltei também a frequentar o Ugly People (para constatar , em parte, que nem ele escapou do photoshop). Acho todo mundo lindo e singelo de doer o coração e dou muitas risadas com a graça (em amplo sentido), irmã gêmea do ridículo, que todos nós carregamos. E uma hora dessas vou resgatar todas aquelas minhas fotos que "deram errado" pra vcs verem como eu também sou mais linda e humana quanto mais feia pareço.
...e se deixa entrever. Porque, como já dizia Heidegger, a presença velada se desvela no enquanto. E como esclareceu Sartre: não pensar já é uma escolha do pensamento.
O invisível não é inefável by www.oessencialvislumbrado.blogspot.com is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs License.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Cansei de ser sexy
Nova Deli Fashion Week. Ou só a Meena nos salva do europocentrismo.
De Nova Delhi, Meena Kapoor
8h30 à frente, agora que o horário de verão acabou no Brasil. Meia hora, sim, porque, na Índia, tuuuudo é diferente.
Ai, as compras! Não consigo fugir delas aqui. Não só porque há uma variedade de artigos muito típicos da Índia, que sempre acho que nunca mais terei a oportunidade de comprar, mas também porque não há mesmo muito o que fazer por estas bandas nas horas de lazer depois de conhecer os cinco monumentos mais conservados da cidade: Humayun Tomb, Qutb Minar, Jama Masjid, Red Fort, e meu preferido de todos os tempos- o Lodhi Gardens. Resta-nos confraternizar com os amigos ou sair pra comer (tema do próximo post). Os amigos! O que seria de nós sem eles?!? Melhor do que isso, só quando vem a família, caso da minha rimã-querida-do-coração e do meu cunha, que ora se esbaldam nos vizinhos Camboja e Tailândia e muito alegram minha vida.
A primeira vez que fui ao Khan Market, achei que me tinham feito de besta. Disseram: "É o Iguatemi de Delhi". Daí, chego e vejo um lugar imundo, cheio de cachorro vadio (cachorra vadia, não, que indiana é mulher de família), umas mercearias e até o consultório do Dr. Monga. Poxa, parece trote, não é? Não era.
Já os museus, tadinhos, dão uma peninha! Levaram tudinho pra Londres e pra Nova York. As peças mais bonitas, mais bem cuidadas e mais representativas desta cultura estão do outro lado do mundo. Mas, ao mesmo tempo em que tenho dó, também juro que entendo o "homem branco", aquele do fardo, que não sente nem um pinguinho de culpa por ter saqueado a nação alheia, ao argumentar que fez um bem para a humanidade em preservar os registros culturais de outros povos. Deixa estar. Não vou dar razão nem pra um, nem pra outro, pois esse debate é um tanto mais complexo.
Pois, vamos às compras. Segue meu roteiro-não-exaustivo. A boa notícia é que os precinhos aqui são I-N-A-C-R-E-D-I-T-A-V-E-L-M-E- N-T-E baixos.
Khan Market
A primeira vez que fui ao Khan Market, achei que me tinham feito de besta. Disseram: "É o Iguatemi de Delhi". Daí, chego e vejo um lugar imundo, cheio de cachorro vadio (cachorra vadia, não, que indiana é mulher de família), umas mercearias e até o consultório do Dr. Monga. Poxa, parece trote, não é? Não era. Até 2007 e a inauguração do Select City Walk, lá onde Judas perdeu as botas, mas ainda no perímetro urbano de Delhi, nada havia na cidade que nós ocidentais reconhecêssemos como um shopping. O Khan Market foi e é o mercado de luxo para os padrões locais. Reza a lenda que é o metro quadrado mais caro da Índia. Vai saber. Só sei que no Khan Market, a gente passa da portinha de entrada de cada loja e é transportado imediatamente pra outra dimensão. Dentro das lojas é limpo e moderno como ninguém acredita. Há lojas lindíssimas. E é o lugar ideal para o desafio tenho-só-uma-tarde-para- compras da amiga.
Na tarde de compras
Comece na Anokhi, onde há roupas feitas com block print, uma técnica artesanal para estamparias lindas. A grande vantagem é que os modelos são mais usáveis do que as roupas de Alladin ou de Sherazade. Tem também jogo americano, guardanapo, caderninho de papel artesanal e muita coisa mais. Dali, siga para a Fabindia, para comprar tuuuudo de tecido, desde lenços de seda até colchas, passando pelos sáris. Mas também tem chás, temperos y otras cositas por lá. Suba na Ogaan, na ala central, pra ver coleções de estilistas indianos.
Siga para as mercearias e compre favas de baunilha, açafrão, pignoli, garam masala, sal do Himalaia, chás de Darjeeling e uma série de ingredientes raros no Brasil. Lembre-se de levar pacotinhos de Dal Bukhara embalado a vácuo. Hummm!!!
No caminho, compre cheirinhos de todo o tipo, cosméticos e incensos "Ayurveda Chic" na Forest Essentials.
Compre artigos para casa, de talheres a almofadas de seda (que vêm com enchimento compactado, se quiser colocar direto na mala) na Good Earth. Já que está do lado, aproveite para ver a Oma, no mesmo estilo.
Passe na Silverline para renovar a coleção de acessórios em prata e para comprar presentinhos. Para continuar a coleção de pratarias e se quiser joias de ouro e pedras, a Amrapali é o destino certo. Lindíssimas e por um terço do preço no Brasil.
Termine com um chá da tarde na Choko La. Adoro!
Cottage Industries Emporium
Essa dica é para aqueles que têm uma ou duas horas só para compras. Uma loja do Governo, com preços fixos, e boa seleção nos seus quatro andares repletos. Um pouco cafona, às vezes. Há que separar o joio do trigo. Mas, dá para confiar que a seda é seda, e a pashmina é pashmina (cashmere). O preço não é o melhor, mas é o que se paga pelo conforto do ar condicionado, do cartão de crédito e de ter todos os artigos típicos e de qualidade garantida reunidos.
Dilli Haat
Pra quem quer ir a uma feira indiana sem se estressar (demais). Como há uma taxa de quinze rúpias na entrada, não há tanta gente como nos mercados, só entra quem está disposto a comprar. E quinze rúpias são sessenta centavos de real! Tem excelente seleção de tecidos, lenços e afins, além de outas peças de artesantato e até pérolas verdadeiras (de água doce). Os feirantes mudam a cada quinzena. Pechinchar é obrigatório. Comece pedindo metade do preço inicial.
Dê uma espiadinha no "Asia's finest luxury destination" e compare com o Khan, hehehe:
Acabou de ser aberto, uma extravagância! Tem quase todas as grandessíssimas marcas, com preço de EUA. Armani, Salvatore Ferragamo, Gucci, Burberry (onde caio em tentação uma vez a cada ano) etc, etc, etc. Mas, o que mais gosto é de fuçar as marcas indianas nos últimos dois andares.
Designers Indianos
Amo, amo, amo o Manish Arora. Não que eu use. Ele faz a verdadeira moda-conceito, não é lá muito usável. Dele, tenho uma saia da coleção circo, estilo Bispo do Rosário (que uma amiga americana sugeriu emoldurar e pendurar), gloss da M.A.C. e um tênis Reebok Fish Fry (Não errei, é Fish Fry!). Ele tem uma linha meio doida da Swatch e outra de porcelana da Good Earth. Transita pelas Fashion Weeks europeias e fez vitrines da Printemps em Paris ao lado do já saudoso McQueen. É famoso, então é bem careiro para os padrões locais.
Dos mais usáveis, gosto de muita coisa que vejo de Rohit Gandhi e Rahul Khanna e das irmãs Gauri and Nainika. Dentre os indianos mais tradicionais e ao mesmo tempo moderninhos, vale lembrar o Sabyasachi e a Ritu Kumar, que tem linhas bem usáveis , além das coloridas roupas de noivas. Quase me esqueci do estilista mais famoso de Goa, que procura dar um quê de Rio de Janeiro às suas coleções praianas, o Wendell Rodricks. Rodricks de "Rodrigues". Os portugueses deixaram suas marcas por lá.
Mas tem muita cafonice entre os estilistas indianos também, como o celebrado e, na minha opinião, breguérrimo, Satya Paul
Bebês (pois, afinal, a dona do blog é uma linda mamãe)
É uma marca francesa muito bonitinha daquelas de roupa de adultos para bebês. Mas fica na cidade-satélite de Gurgaon, no Shopping Ambience Mall, ou seja, a uma hora de carro do centro. Tem muita roupa para menino. É que aqui menina é mesmo um fardo. Sai caro ter filhas. O resultado é que o feticídio feminino é tão comum, que é proibido ao médico revelar o sexo do bebê. Mas eles dão sempre um jeito de dizer sem falar. Nada que o $ não resolva. Pelos dados oficiais, são cerca de 108 homens para 100 mulheres na Índia. Pior fica a taxa no retrógrado estado do Punjab, com 126 (!) homens para cada 100 mulheres.
Sabe quando você procura loja de bebê pra comprar de presente para amigas, só acha a Obäibi e desiste porque é francesa, não tem nada de típico? Seus problemas acabaram! Abriram a Kidology, no DLF Promenade (coladinho ao Emporio), onde os designers queridinhos de gente-grande fazem roupas fofíssimas para gente-pequena. Lindo de morrer.
Forest Essentials
A loja mais cheirosa da Índia acabou de lançar uma marca "mamãe e bebê", com óleos, sabonetes, esfoliantes e cremes. Luxo puro!
E não é só isso...
Não deixe de comprar maquiagem M.A.C., camisas Lacoste, tênis Puma e Adidas e enfeitezinhos na Accessorize. Tudo pela metade do preço.
Para peças de decoração, não perca tempo e vá para La Boutique, em Sunder Nagar. Aproveite e pare na deliciosa loja de chás Regalia. No fim da tarde, coma um docinho na loja da esquina. O Kaju Barfi, um marzipã de castanha de caju, é uma delícia.
O Tibetan Market é um lugar meio pega-turista, mas, sabendo negociar, os preços são bons, e é bem localizado, perto do Connaught Place, onde também há boas lojas. Os estados indianos têm lojas com artesanato local na Baba Karag Marg (que nome é esse!?!). Costuma ser bonito. Recomendo vivamente a loja Kamala nessa rua, com uma seleção da melhor qualidade.
Se tiver espírito aventureiro e quiser descontos bárbaros, dê um pulo no Sarojini Nagar, em Pahar Ganj e nas ruelinhas que saem de Chandni Chowk. Mas vá com coragem, com disposição para negociar e sem nada de salto. Não se esqueça de proteger o traseiro, que há tarados à solta.
Gran Finale
Depois de tudo isso, respire fundo, faça 20 pranayamas, cante "Ommmmm Shanti, Shanti, Shanti" e vamos combinar que você merece uma massagem no Amatrra ou no Asian Roots. Ayurveda, Thai, ou minha preferida, a Globetrotter. É bem mais caro que no Brasil, mas vai compensar cada paisa.
Namastê!
Eu não sei quanto a vocês mas eu fiquei boba com o bairrismo, agora visto sob a ótica da moda. Claro que a gente sabe que o mercado - de quase tudo - é majoritariamente dominado pelo circuito NY- Paris-Milão. Mas como somos egocêntricas gotas d'água no oceano, não? E pensar que existe tanta coisa linda neste mundo que a gente ainda não viu...
E querida amiga Meena, só a futilidade salva ( isso- ou alguma coisa apenas ligeiramente semelhante- quem disse foi Caio de Abreu).
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
We are family
Eu vou assumir meu lado jersey girl e sair do armário.
Há em mim uma habitante de um subúrbio norte americano. Eu gosto de gospel. Eu gosto de comidas apimentadas e gordurosas que ninguém mais come.
Mas acima de tudo o meu SONHO é ter muitos filhos e levá-los a missa de domingo com vestimentas coordenadas como estas aqui ao lado. Coordenadas com a minha inclusive e se possível com a do papai também. E depois almoçar um cajun meatloaf acompanhado de onion rings e um red velvet double icing de sobremesa. Isso sim é que é vida.
Coordenáveis de família da Wooden Soldier.
Há em mim uma habitante de um subúrbio norte americano. Eu gosto de gospel. Eu gosto de comidas apimentadas e gordurosas que ninguém mais come.Mas acima de tudo o meu SONHO é ter muitos filhos e levá-los a missa de domingo com vestimentas coordenadas como estas aqui ao lado. Coordenadas com a minha inclusive e se possível com a do papai também. E depois almoçar um cajun meatloaf acompanhado de onion rings e um red velvet double icing de sobremesa. Isso sim é que é vida.
Coordenáveis de família da Wooden Soldier.
Toque, toque?
Eu juro que eu acho que ninguém se lê na blogosfera.
Sabe aquele diálogo entre o surdo-mudo e o cego? O cego fala mas o surdo não escuta. O surdo então escreve, mas o cego não pode ver. E os dois saem contentes achando que estão comunicados. Isso não é de todo ruim, não. Diálogo é da ordem do " a gente não quer só comer a gente quer comer e quer fazer amor". Pode-se perfeitamente passar uma vida tranquila e de barriga cheia sem nunca ter se travado um diálogo.
O que eu não entendo então é: por que ter um blog se a criatura não quer conversar? Parece que fui a última a saber mas dialogar é a última razão da lista.
Às vezes leio um post - e eu leio muitos por dia, adoro ler desconhecidos - e sigo lendo os comentários. Estes parecem mais ser alguma coisa estética, visual, do que semântica. Parece que se comenta porque vai aparecer um nome e uma foto ali indicando que Fulaninho está pagando o pedágio do dia. Concordar unanimamente é regra de etiqueta. Elogiar bastante também.
Ninguém fala coisa com coisa. Ninguém lê o comentário anterior? Ou mesmo o texto comentado? Cada um fala sobre si, mesmo que indiretamente, sobre sua questão ou no que estava pensando da vida antes de sair de casa, independente do texto que acabou de ler, da alteridade com que acabou de se confrontar.
Não me entendam mal, eu não estou aqui falando sobre a relevância dos comentários ou mesmo dos blogs sobre o nada. Eu adoro blogs sobre o nada. Aliás, tenho percebido que quanto mais comprometido com o nada e o ninguém um blog é, mais interessante ele fica. Os blogs sobre coisas relevantes são muito chatos. E os blogs sobre irrelevâncias que se pensam relevantes são mais chatos ainda.
Fico com os blogs irrelevantes sobre irrelevâncias. Nestes, quando a sorte aparece, a gente acaba ganhando o dia com uma poesia que ninguém mais leu, mudando de caminho por conta de uma briga, ensinando algo a alguém, arranjando namorado e emprego ou qualquer coisa que signifique que duas pessoas estavam presentes e abertas. E isso é o barato da vida.
Sabe aquele diálogo entre o surdo-mudo e o cego? O cego fala mas o surdo não escuta. O surdo então escreve, mas o cego não pode ver. E os dois saem contentes achando que estão comunicados. Isso não é de todo ruim, não. Diálogo é da ordem do " a gente não quer só comer a gente quer comer e quer fazer amor". Pode-se perfeitamente passar uma vida tranquila e de barriga cheia sem nunca ter se travado um diálogo.
O que eu não entendo então é: por que ter um blog se a criatura não quer conversar? Parece que fui a última a saber mas dialogar é a última razão da lista.
Às vezes leio um post - e eu leio muitos por dia, adoro ler desconhecidos - e sigo lendo os comentários. Estes parecem mais ser alguma coisa estética, visual, do que semântica. Parece que se comenta porque vai aparecer um nome e uma foto ali indicando que Fulaninho está pagando o pedágio do dia. Concordar unanimamente é regra de etiqueta. Elogiar bastante também.
Ninguém fala coisa com coisa. Ninguém lê o comentário anterior? Ou mesmo o texto comentado? Cada um fala sobre si, mesmo que indiretamente, sobre sua questão ou no que estava pensando da vida antes de sair de casa, independente do texto que acabou de ler, da alteridade com que acabou de se confrontar.
Não me entendam mal, eu não estou aqui falando sobre a relevância dos comentários ou mesmo dos blogs sobre o nada. Eu adoro blogs sobre o nada. Aliás, tenho percebido que quanto mais comprometido com o nada e o ninguém um blog é, mais interessante ele fica. Os blogs sobre coisas relevantes são muito chatos. E os blogs sobre irrelevâncias que se pensam relevantes são mais chatos ainda.
Fico com os blogs irrelevantes sobre irrelevâncias. Nestes, quando a sorte aparece, a gente acaba ganhando o dia com uma poesia que ninguém mais leu, mudando de caminho por conta de uma briga, ensinando algo a alguém, arranjando namorado e emprego ou qualquer coisa que signifique que duas pessoas estavam presentes e abertas. E isso é o barato da vida.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Bandeirantes e Traficantes
Outro dia ouvi de uma amiga uma frase muito bonita, que fica desde então ecoando volta e meia nos meus ouvidos: " Estou abdicando de certas coisas ( a conversa era sobre vaidade, roupas, etc) no começo da vida da minha filha, que é um momento essencial da vidinha dela, para que lá na frente ela possa se destacar."
Eu me emocionei porque me reconheci neste pensamento meio machista, meio interiorano e muito familiar que, creio eu, foi um dos motivos que fez afundar meu casamento. E pensei nesta diferença no modo de ver a vida e na personalidade, que são influenciadas pelo aspecto histórico e geográfico.
Os bandeirantes, aquele pessoal que veio tardiamente para desbravar e colonizar o interior do Brasil através das entradas e bandeiras, foram a origem do povo que acabou se estabelecendo em Minas, Goiás, Tocantins e Mato Grosso. Incrível como mesmo hoje em dia este pessoal é reconhecido pela quietude (mineiro come quieto, não é?), pelo gosto pela família e pela intimidade, pelo apego a terra e à propriedade, pelas mulheres prendadas e recatadas, pela religiosidade, pela abnegação, parcimônia e solidariedade típicos de quem já enfrentou um sertão despovoado.
Isto em contraste com os brasileiros do litoral, os que chegaram primeiro e se estabeleceram com a ajuda do rei, aqueles que descendem da nobreza portuguesa decadente, de criminosos exilados, comerciantes, traficantes de escravos. Estes são mais barulhentos, sedutores, sociáveis, cultivaram a lábia e a oratória, mantiveram a similaridade com os espalhafatosos e desastrados portugueses e tem uma relação mais indulgente com a vida, com os valores tradicionais. São artistas, são simpáticos, são emotivos e festeiros.
Não há nenhuma "espécie" melhor do que a outra, pelo contrário, o bonito é a riqueza do povo brasileiro. Só tenho achado interessante observar os contrastes e reconhecer as raízes do fato imutável, em parte, e irreproduzível, totalmente, de eu ser quem eu sou e como eu sou.
E acho que na próxima tentativa vou me amaziar com um pantaneiro ;-)
Eu me emocionei porque me reconheci neste pensamento meio machista, meio interiorano e muito familiar que, creio eu, foi um dos motivos que fez afundar meu casamento. E pensei nesta diferença no modo de ver a vida e na personalidade, que são influenciadas pelo aspecto histórico e geográfico.
Os bandeirantes, aquele pessoal que veio tardiamente para desbravar e colonizar o interior do Brasil através das entradas e bandeiras, foram a origem do povo que acabou se estabelecendo em Minas, Goiás, Tocantins e Mato Grosso. Incrível como mesmo hoje em dia este pessoal é reconhecido pela quietude (mineiro come quieto, não é?), pelo gosto pela família e pela intimidade, pelo apego a terra e à propriedade, pelas mulheres prendadas e recatadas, pela religiosidade, pela abnegação, parcimônia e solidariedade típicos de quem já enfrentou um sertão despovoado.
Isto em contraste com os brasileiros do litoral, os que chegaram primeiro e se estabeleceram com a ajuda do rei, aqueles que descendem da nobreza portuguesa decadente, de criminosos exilados, comerciantes, traficantes de escravos. Estes são mais barulhentos, sedutores, sociáveis, cultivaram a lábia e a oratória, mantiveram a similaridade com os espalhafatosos e desastrados portugueses e tem uma relação mais indulgente com a vida, com os valores tradicionais. São artistas, são simpáticos, são emotivos e festeiros.
Não há nenhuma "espécie" melhor do que a outra, pelo contrário, o bonito é a riqueza do povo brasileiro. Só tenho achado interessante observar os contrastes e reconhecer as raízes do fato imutável, em parte, e irreproduzível, totalmente, de eu ser quem eu sou e como eu sou.
E acho que na próxima tentativa vou me amaziar com um pantaneiro ;-)
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Cosméticos sem crueldade
Uma coisa em que pouca gente por aqui para pra pensar é na questão dos testes em animais durante o processo de desenvolvimento de novos produtos e técnicas cosmetológicos e farmacológicos.
É uma questão mais complexa do que parece. Primeiro porque ser absolutamente contra a testagem em animais, embora fosse o ideal, é impossível, ao menos para mim. Eu adoro animais, desde menina. Tenho 3 cachorros e etc. Mas tenho uma formação acadêmica empirista. Que seria de nós se não pudéssemos colocar eletrodos em ratinhos de laboratório? Ou testar substâncias pouco conhecidas em coelhos, sendo que resultados positivos trariam benefícios incontáveis no tratamento de doenças, por exemplo? Eu realmente acho inevitável a testagem em animais na industria farmacêutica.
Agora, precisamos de limites rígidos. Uma coisa é testar um psicofármaco em um gato que pode morrer de ataque convulsivo. Outra coisa é cegar, escalpelar e humilhar macacos testando shampoos e cremes inovadores. E gente, ninguém divulga - por razões óbvias- mas como isso existe!
O PETA diz que é possível desenvolver metodologias que dispensem a testagem em animais para se estabelecer a segurança de um novo ativo. Porém isso necessitaria, como a maior parte das causas ecológicas, de empenho, boa vontade e alguma verba. E esta, a gente sabe, é a parte difícil.
Nem sempre o boicote às marcas que usam de crueldade contra os animais em seus testes é possível, eu bem o sei, mesmo porque as duas grandes gigantes da cosmética ( leia-se L'oreal e Protector&Gamble) são justamente aquelas que nem se abalam com esta questão. Tem as melhores tecnologias ao preço mais acessível e o grande público aos seus pés. Além disso, compram marcas concorrentes que acabam se tornando alegorias na grande máquina que é uma empresa destas. Recentemente, por exemplo, a L'oreal comprou a ecologicamente correta "The body shop" que passou a pertencer ao grupo. Sim, a marca continua extraindo matéria orgânica de modo sustentável e não faz testes em animais. Mas grande parte de seu lucro vai parar nas mãos da corporação a que pertence. E agora?
A gente faz o melhor que pode. Ninguém, a menos que seja profundamente engajado, vai deixar de comprar seu desodorante Dove ou seu shampoo Pantene na hora do aperto. Isso sem mencionar as fraldas descartáveis, né? Poucos são os corajosos ( loucos?) que abdicam dela. Mas, de gota em gota fez-se o oceano. Eu acho que não custa nada, na hora de escolher entre duas marcas, optar por aquela que não faz testes em animais. No site Caring Consumer tem uma lista das empresas que não testam em animais.
Já adianto que a L'occitanne e a M.A.C são do bem ;-)
É uma questão mais complexa do que parece. Primeiro porque ser absolutamente contra a testagem em animais, embora fosse o ideal, é impossível, ao menos para mim. Eu adoro animais, desde menina. Tenho 3 cachorros e etc. Mas tenho uma formação acadêmica empirista. Que seria de nós se não pudéssemos colocar eletrodos em ratinhos de laboratório? Ou testar substâncias pouco conhecidas em coelhos, sendo que resultados positivos trariam benefícios incontáveis no tratamento de doenças, por exemplo? Eu realmente acho inevitável a testagem em animais na industria farmacêutica.
Agora, precisamos de limites rígidos. Uma coisa é testar um psicofármaco em um gato que pode morrer de ataque convulsivo. Outra coisa é cegar, escalpelar e humilhar macacos testando shampoos e cremes inovadores. E gente, ninguém divulga - por razões óbvias- mas como isso existe!
O PETA diz que é possível desenvolver metodologias que dispensem a testagem em animais para se estabelecer a segurança de um novo ativo. Porém isso necessitaria, como a maior parte das causas ecológicas, de empenho, boa vontade e alguma verba. E esta, a gente sabe, é a parte difícil.
Nem sempre o boicote às marcas que usam de crueldade contra os animais em seus testes é possível, eu bem o sei, mesmo porque as duas grandes gigantes da cosmética ( leia-se L'oreal e Protector&Gamble) são justamente aquelas que nem se abalam com esta questão. Tem as melhores tecnologias ao preço mais acessível e o grande público aos seus pés. Além disso, compram marcas concorrentes que acabam se tornando alegorias na grande máquina que é uma empresa destas. Recentemente, por exemplo, a L'oreal comprou a ecologicamente correta "The body shop" que passou a pertencer ao grupo. Sim, a marca continua extraindo matéria orgânica de modo sustentável e não faz testes em animais. Mas grande parte de seu lucro vai parar nas mãos da corporação a que pertence. E agora?
A gente faz o melhor que pode. Ninguém, a menos que seja profundamente engajado, vai deixar de comprar seu desodorante Dove ou seu shampoo Pantene na hora do aperto. Isso sem mencionar as fraldas descartáveis, né? Poucos são os corajosos ( loucos?) que abdicam dela. Mas, de gota em gota fez-se o oceano. Eu acho que não custa nada, na hora de escolher entre duas marcas, optar por aquela que não faz testes em animais. No site Caring Consumer tem uma lista das empresas que não testam em animais.
Já adianto que a L'occitanne e a M.A.C são do bem ;-)
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