Daí que um dia, você emagrece. Não o suficiente, mas o bastante pra se animar a tirar a roupa na frente de alguém. Daí que a vida segue, o tempo cura, você perdoa, porque enfim, nós somos essas pobres criaturas imperfeitas.
Aí você, que trabalha, faz faculdade e é mãe solteira, tem a idéia brilhante de se inscrever num site de relacionamentos, já que entendeu que a vida pode ser simples. E aí você põe lá uma fotozinha mais ajeitadinha, escreve umas bobagens engraçadinhas sobre si mesma e espera. Espera as figuras insólitas que vão aparecer. Não que eu tenha nada contra, eu sou bem do tipo que nada do que é humano pode me ser estranho. Além de que, pra quem tava curtindo uma insônia tediosa enquanto a bebê dormia, qualquer entretenimento tá valendo. E vai saber, né? Vai que aquele sujeito aparentemente maluco tem a dizer justamente o que você precisava ouvir...
Aí um dia você conhece um cara legal. Papo bom. Alto. Foto ajeitadinha. Culto. Gentil. E vai conversando, conversando até que...opa...você não é amigo do Fulano? E era. Daí a gente descobre vários amigos e cidades e coisas em comum. Inclusive que ele acabou de se divorciar e diz todo orgulhoso que a iniciativa foi dele. E claro, que para a narradora romântica que vos fala, isso já foi um cooler, mas me entendam: foi uma coincidência que só seria verossímel em novela e melhor não detalhar, mas eu precisava insistir. E você, mulherzinha romântica como eu, logo concluirá: meudeusdocéu, era pra acontecer, são almas gêmeas. Ok. Agora vamos enxugar a feminice, subtrair o estranhamento da coisa para a conclusão final: era um encontro significativo e valia a pena insistir um tico.
Daí a novela continua no orkut. Bom, continuaria. Porque no orkut do cara tem 100 piriguetes e você é só mais uma. Antes de mais nada, queria dizer que eu não gosto do termo piriguete. Porque é machista. Porque toda mulher tem o direito de ser piriguete o quanto queira. Mas todo mundo aqui sabe identificar uma piriguete como o meu exato alter ego, né? Pois é. E também, a esta altura, eu já havia passado por cima de uma série de coolers como divergências políticas e uma violência sutil em escutar: " que saco pagar pensão pra aquela vaca ( a ex)". Por isso tive que avançar e chegar a dois dilemas indignantes: 1. Como assim esse cara legal tem este gosto duvidoso? 2. Como assim eu não sou a única? Então existe isso de galinhagem virtual ( eu pensava que só nerds bem intencionados iam parar nos sites de relacionamentos...)?
Aí você fica meio chocada. Que mundo cão é esse onde nem protegido por um computador, o anonimato, a distância, a fantasia, você pode ser fiel e romântico ( e se você não quer ser, OK, nobody needs to know...)
E como esse cara não percebeu que, veja bem, você não só não é "só mais uma" como você é a mulher mais fodona que ele vai conhecer na vida dele e que, veja mais uma vez, vocês se encontraram numa sorte muito louca num site de relacionamento cheio de gente bizarra e isso deveria significar alguma coisa mais do que o ordinário?
Agora me diga, como é que a gente explica isso sem parecer arrogante?
A verdade é que essas coisas ululantemente óbvias a gente não deve explicar, nunca, jamais, em hipótese alguma. E eu tenho uma vasta, vastíssima experiência em fracassos deste tipo, que ao menos serviram para alguma coisa: saber que para bom entendedor, meia palavra basta. E que o mundo está repleto, lotado, transbordando de gente que, mesmo se a gente esfregar a simplicidade e a clareza do amor na cara delas, elas não vão enxergar. Porque estão machucadas. Porque falta amor no coração.
Da próxima vez que o cara aparece, você, que já concluiu tudo isso mas tb já tem idade suficiente para saber que é perigoso tirar conclusões unilaterais, diz apenas: "Olha, acho que não faço seu tipo..."
E por causa disso tenho que ouvir um monte de coisas. Tipo, que sou estranha ( really?), arrogante ( surpresa!) e que julgo as pessoas pela aparência e isso é feio (uau) e que, sites de relacionamento servem pra gente conhecer pessoas, ora bolas.
Sei.
Daí, essa moça romântica porém vivida que vos narra, encerra o assunto com um simples: "realmente, eu tinha falsas expectativas ( o que não significa que eu esteja de acordo que a melhor opção seja não ter expectativas)".
Mas vamos recapitular comigo. Eu, que fui chutada pra fora do meu casamento com um bebê no colo, deveria ser a pessoa defensiva e amargurada, não? E acho até que fui e ainda sou muitas vezes, mas não sou isso em essência, e sim, continuo sonhando. Descobri, com essa novelinha, um paradoxo interessante: eu, que já perdi tudo, perdi também grande parte do medo. Afinal de contas, o que pode ser mais desolador, desestruturante, do que perder a família, os sonhos românticos, com sua filha recém-nascida no colo? Nada, ou muito pouco. E eu sobrevivi. E eu não odeio o meu ex-marido. Shit happens, pessoas erram, eu reconheço que as pessoas especiais são complexas. E eu gosto das especiais, mesmo sabendo do preço que se paga. And, I might be lonely but my heart is full, always.
Agora, não significa que eu tenha que achar bonito essa mediocridade toda da ordem das coisas. Nunca achei bonito e pra ser sincera, nunca entendi como algum sujeito ainda cai nesta esparrela obviamente enganosa e mais histérica impossível que é o poserismo das piriguetes. Mas anda difícil ser frágil neste mundo de popozudas e preparadas, precisa de muita força e coragem. Porém, como diria minha filósofa contemporânea predileta, a Baby Consuelo do Brasil: A vida de Deus não é coisa pra bunda mole, não. Amém.

Que dificuldade Maura! Hoje em dia as pessoas estão sem paciência para o jogo da sedução, para se conhecer, e acho que justamente as pessoas que procuram estes sites de relacionamento são as que têm menos paciência...
ResponderExcluirPena, porque poderia ser o contrário, mais tempo para se conhecer, para conversar, e depois se ver e apostar pra ver no que dá. E vc foi corretíssima na sua análise e na sua postura. Esperemos que a próxima tentativa seja mais legal! :)
Beijos
Querida,
ResponderExcluirSaudades dos seus textos. Na maioria da vezes fico aqui de fantasminha, mas sempre faço um diálogo (mesmo que interno) com o que você escreve.
Abaixo a mediocridade! Eu sou romântica e otimista ... acho que as pessoas especiais e sinceras se encontram.
Que lucro o teu! Perder parte do medo é um grande ganho. Eu acho que a maioria da pessoas se move por medo. Eu amo as corajosas!
beijos,
Que texto legal amiga!! Eu tava com saudades dos seus escritos...
ResponderExcluirNovela iteresante, com aprendizado pra todas nós e final feliz. Os especias com especias...
O importante é ser feliz!
ResponderExcluirMais uma história p contar!
Logo haverá um final feliz, onde o mocinho e a mocinha viveram felizes p sempre!
;)
O meu ditado é que o NÃO a gente já tem, a única coisa diferente q pode acontecer é o SIM, então bola pra frente, sacode a poeira...força na peruca!!!!
Uhuuuu....
beijos!
Adorei o texto!!!!!
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