terça-feira, 5 de outubro de 2010

Sincericídio, política correta e hipercrisia.

Quando alguém começa um papo comigo dizendo: "olha, eu  tenho que ser honesto com você..." eu já sei que a conversa está prestes a descambar para um terreno perigoso. Muito provavelmente o interlocutor vai se esconder atrás de argumentos politicamente corretos e/ou argumentos ideológicos bem pouco consistentes. E isso vai servir de justificativa pra qualquer coisa que o camarada use como complemento a esta introdução genérica. A pessoa acha que dizer a verdade, a qualquer preço, mesmo que seja o preço de um casamento, um partido,  uma vida, um coração, é uma coisa bonita e nobre "Eu sou bacana e verdadeiro". E eximível de qualquer responsabilidade, claro, inclusive a de se aprofundar sobre qualquer tema porque está, a priori, coberto de razão ( ou verdade).

Isso me faz lembrar da Carrie Bradshaw, ligando do Egito para o seu marido, bem tarde da noite, para contar que ela tinha beijado um outro sujeito e ele "precisava saber porque eles não tinham segredos um com o outro". Ele, o marido, respondeu de forma muito interessante ( já não bastasse o cara ser alto, rico e bonitão). Ele disse: " mas você precisava mesmo por a perder o meu dia de trabalho e me fazer sofrer por meses só para deitar a cabeça no travesseiro e se sentir melhor? Não há nada a ser feito, nosso casamento é mais forte do que isso, mas agora eu vou sofrer sempre que pensar nisso". Enfim, foi mais ou menos este o diálogo em Sex and the city 2.

Nem toda verdade é a melhor opção ética. Eu acho bem mais bonito aquela criatura que escolhe a sua hipocrisia e é bem radical nela. Hipocrisia: aquilo pelo qual ela aceita fingir que não tem crise. E vai morrer por esta verdade. Se torturado, não abre mão dela. Deportado, preso, louco. Foda-se. E você pode passar um canivete no seu pulso, que ela vai passar no dela e colar o sangue no seu. Pode assinar num papel onde a criatura assinou, que ele nunca vai ser rasgado. Porque a criatura empenhou a própria cabeça naquela mentira. E de verdade, eu prefiro um cidadão que morre pela sua mentira do que um que se esconde atrás de uma retidão  alheia e superficia. Reconheço que é uma obsessão totalmente reforçada pela cultura, essa de buscar o verdadeiro. E aí no "verdadeiro" você pode substituir por vários sinônimos de ocasião tais como: o correto, o feliz, etc... E a versatilidade com que estas palavras podem ser alternadas já demonstra a própria falta de radicalidade do argumento.

"Eu não estava feliz" ou "Eu te amo mas preciso ser sincero com você" são afirmações muito valorizadas por nós, ao ponto de quando alguém as diz, nós já meio que achamos que elas estão auto-justificadas  pelos sentimentos associados a elas, seja qual for o motivo da infelicidade ou do sincericídio que se está prestes a cometer. É como se a verdade fosse uma coisa expiatória e o mal estar do sujeito fosse um argumento que não necessitasse de fundamentação ou relativização. Desculpem, mas não me venham com sinceridades não radicais.  A verdade não é um ataque verborrágico narrativo, ou ao menos, não deveria ser.


Heidegger, o humanista nazista, tem uma proposta bem bonita sobre o que vem a ser a verdade e como nossa cultura associou a verdade à adequação. Uma coisa verdadeira é aquela que se adequa ao conceito prévio que tínhamos sobre  esta mesma coisa. Ou seja: é verdadeiro aquilo que é coerente com os códigos de verdade que eu guardo na caixola. Muito bem. O problema da verdade como adequação é que não há brechas para novidade. Verdade é tudo aquilo que se enquadra no seu código e ponto final. Nao gostou? Problema seu, "não abro mão dos meus valores". Mas peraí. Eu posso compreender que os valores se conservem, mas será que as forma pelas quais eles se manifestam vão ser sempre aquelas que estão previstas lá no seu código da idade da pedra? A essência da verdade é uma danada capciosa. Ela escapa, escorrega se transmuta e a gente nunca pode deixar de perseguí-la. E eu acho muito mais sincero que, antes que alguém diga a outrém que não está feliz, que questione se o seu conceito de felicidade ainda permanece o mesmo. Ou que vá fazer análise, oras.

De modo que eu não me importo mesmo se você é Serra, é Dilma, é gay, é assassino, é padre, é francês. O que eu quero saber de você é se  você se compromete comigo a buscar, em todas as situações, a essência da verdade, por menos óbvia e por mais contraditória que ela se apresente. E que eu possa assinar meu nome junto com o seu numa folha que não será rasgada. E que, no primeiro obstáculo, vc não vai tirar o seu clichê do bolso e esfregar na minha cara, cheio de orgulho e dignidade sincericida.

Mentiras sinceras e muito radicais super me interessam.


6 comentários:

  1. Maura, o que me incomoda neste mundo de hoje é que as pessoas não pensam no que é verdade; apenas vomitam o seu egoísmo e está tudo certo. Vc bem disse: antes de falar que não está feliz, a pessoa deve rever seus conceitos de felicidade, porque certamente a felicidade do comercial de margarina não existe, e quem acredita nela é um ser estúpido ou extremamente arrogante...

    Beijos

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  2. Maura, eu super rejeito a hipocrisia! Eu acho que as pessoas devem sim dizer a verdade, mesmo que ela seja uma merda. Elas devem dizer que não querem mais estar num relacionamento, se é isso mesmo que elas querem. Isso me parece mais justo com o outro do que manter as aparências. No entanto, a decisão de contar ou não sobre traiçoes e outras deslealdades deve passar por um bom senso. Nada de mágoas desnecessárias... mas isso é sutil demais. Se a pessoa não está encontrando espaço no relacionamento para se realizar, ou ela assume o compromisso e busca esse espaço, sinceramente e com a ajuda do outro, ou ela sai do relacionamento, muitas vezes bruscamente e terá de lidar com as consequencias dessa escolha. Assim como o outro, que tb paga o preço...

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  3. Shirley, amiga, eu também sou super a favor da verdade, contanto que ela seja verdadeira em essência. O problema é que o conceito de verdade não é estático e precisa ser burilado e ninguém mais faz isso, sério. Vomitar uma "realidade" cheia de pré-conceitos para que o outro a elabore, não é dizer a verdade. Concordo que é sutil, quase inefável ;-)
    Bjs

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  4. Dáfni, é isso mesmo, as pessoas vomitam seu egoísmo e acham que estão conversando. Não estão. Estão fagocitando uns aos outros sem a menor possibilidade de diálogo. Eu desconfio de qualquer sentimento muito unânime: pra mim é sinal que a essência dele está engessada.
    Bjs

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  5. Pior do que vomitar egoísmo é quando a pessoa tira banca de autêntico, e eu acredito que o autentico não passa de um mal educado que não sabe com quem, nem a hora e o momento de expor suas brilhantes verdades.

    Tenho uma bronca disso, ahhhh se tenho.

    Ou então a pessoa grita para o mundo que tem atitude. Blergh ... que nojo.

    Tenho uma curiosidade: Como é mesmo que a psicologia define atitude?

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  6. Sabe o que eu acho? As palavras são ditas sem responsabilidade, sem a real noção do seu conteúdo.

    Ex: Ouço de pessoas q não vejo há séculos: "QUE SAUDADES EU ESTAVA DE VC!!!!"

    Dá vontade de responder: "Estava nada... se estivesse teria ao menos me ligado!"

    As palavras não podem ser jogadas ao vento!

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