Não é uma fantasia sexual exatamente inovadora, essa de having a crush pelo professor.
Na verdade, pensando bem, é a própria caricatura de uma fantasia sexual histérica: um objeto sexual masculino, mais velho e detentor de um saber que eu desconfio que ele tenha mas só tenho certeza mesmo de que eu não o tenho. É o tal do saber suposto. Eu acho que ele sabe das coisas, o danadinho. Não, não é uma fantasia surpreendente ou criativa.
Mas outro dia fui pega por ela. O cara era fofo. Eu tenho uma queda por sujeitos fofos. Sabe aquele cara com jeito de nerd, cabelinho almofadinha e que mamãe com certeza aprovaria? Então, este é o tipo. Se for alto, nocaute. Agora se for correto, do tipo que, se bate no carro de alguém que não está presente, deixa um bilhetinho com o nome, telefone e endereço dizendo: "Desculpe, bati no seu carro, pode me ligar para acertamos", aí já era. E já era mesmo, porque eu sofro de amor platônico. E com este professor foi assim.
E eu, que não sou nenhuma assanhada, ao menos não assim tão óbvia, ia pra aula e mal respirava, ficava vermelha e meu coração parava de vez em quando. Mas até aí tudo bem, afinal de contas, esta sou eu, uma canceriana romântica e sem lar. Mas o negócio é que eu olhava pro sujeito e me vinham palavras tipo "Sodoma" ou "Baco" ou ainda, se a coisa tava muito feia pro meu lado, me ocorriam cenas de orgia tipo "A Morte de Sardanapalo". Normalmente, eu sou uma pessoa mais Klimt e suas cenas de sexualidade quase intra-uterinas mas, with the right button pushed, parece que sai de tudo.
Isso seria muito divertido e tal e coisa, não fosse eu estar numa fase tão fragilizada da minha intempestiva vida. Recém-separada, recém-parida, recém-deportada. Lactante, gordinha e vamos parando por aí, a coisa não podia estar pior pro meu lado. E eu sofri um pouco além do limiar que poderia ser considerado prazeiroso . E fui lamber minhas feridas noutro canto, que aquilo estava mais pertubador do que eu podia suportar com minha auto-estima capenga e corrompida.
Eis que ontem dou de cara com esta figura tão ilustre que me evocava o deus Eros todo ornamentado de luz e glória. Talvez a coisa não esteja muito melhor pro meu lado - embora, preciso reconhecer, o tempo cure mesmo quase tudo, se não tudo. Mas eu estou mais aprumadinha, nem que seja só moralmente. E me senti grata por aquilo que ele despertou em mim. Mesmo que ele nunca venha a saber, me ajudou. Pena que ele não é mais meu professor. E isso é tão, mas tão determinante que o sujeito perdeu alguns centímetros de altura. Ganhou uma voz estranha e uma gagueira que eu nunca tinha percebido. Também achei-o meio mal vestido: camiseta regata é o fim, mesmo no domingo. Ele me cumprimentou e eu não fiquei vermelha. Tentei pensar em Klimt e tive um certo enjôo. Modelos famosas nunca deveriam falar em público e professores nunca deveriam sair da sala de aula. Isso por uma boa causa, em prol de patrimônio da humanidade: a fantasia sexual estruturante. E viva Sardanapalo, padroeiro às avessas dos românticos, em seu nome saiamos sempre da lama. Oxalá.
* A figura mostra o quadro referido de Delacroix denominado " A Morte de Sardanapalo".


Maura, imagino às vezes o que os meus alunos devem falar ou pensar de mim! De tudo! Aliás, nem quero imaginar... tem coisas que é bom nem saber, para o bom andamento da profissão!
ResponderExcluirTô gostando de te ver aprumadinha...
Beijos
Dáfni,
ResponderExcluirCertamente imaginam coisas. Me lembrei que já tive problemas com isso, tive um aluno stalker, tadinho, tinha apenas 15 anos.
Tanto para o bom andamento da profissão quanto para um psiquismo saudável, há coisas que é melhor manter no imaginário.
Agora grávida você vai ver cada coisa...
beijos!
Adorei o post, Maura. Muito bem escrito. Como diz uma amiga minha: a realidade nunca é melhor do que a sua imaginação.
ResponderExcluirE, como professora, devo confessar que às vezes eu preferia nunca sair da sala de aula. Acredite, não são apenas os alunos que se decepcionam com professores fora do lugar onde eles são as estrelas...