Uma coisa que você não encontrará aqui com frequência é o mau uso da língua portuguesa que se vê por esta blogolândia afora. Eu tenho um hábito que já considerei muito útil mas hoje em dia tenho lá minhas dúvidas quanto a sua inofensividade: eu leio tudo que está ao meu alcance. Placas de trânsito, bulas de remédio, rótulos, tablóides esquecidos no banco do metrô, bilhetes de amor que ficaram perdidos dentro de livros antigos, recados, panfletos, etc. Isso me provê de uma boa cultura popular de maneira geral, mas desde o advento da auto-titulaçao virtual na classe dos escritores tenho um pouco de receio do que me bombardeia. Como assassinam nossa língua (p)mátria! Assim, sem respeito, sem amor, como se o importante fosse o que se tem para dizer e não a forma em que será dito.
Mas a confissão que tenho a fazer talvez seja ainda mais grave:considero a gramática o menor dos problemas em um texto ruim. Supondo que o descaso com a forma seja justificado pela importância do conteúdo, eu consideraria um deslize perdoável. Sim, eu acataria com prazer esta hipótese, até porque não sou a xiita da sintaxe, a pobreza de estilo me incomoda mais do que a ignorância das regras gramaticais. Mas nunca é o caso. Mesmo com tamanho ascinte ao verbo, o que mais me chama atenção é a displicência com a lógica.
Ai, a tão cara lógica argumentativa... Sócrates ( não sabe quem é? corre lá no Wikipédia ) deve se revirar mil vezes por dia no seu túmulo com os textos - e seus esfarrapados argumentos e suas absurdas conclusões - que são publicados por aí. E quem está dizendo isso sou eu, a leitora de bula de remédio, que se dispõe a ler as maiores irrelevâncias já escritas. Não escrever algo relevante é totalmente compreenssível porque, ao bem da verdade, pouca coisa escrita é verdadeiramente relevante. Agora, não escrever algo racional, isso sim é de doer.
"Todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Portanto, Sócrates é mortal."
Parece uma conclusão lógica muito simples e fundamental, e de fato é mesmo, a mais elementar de todas. Mas a quantidade de gente que simplesmente a ignora ou se embanana com ela não é pequena, não. A criatura escreve: "Todas as coisas que gosto são assim e apenas assim. Isso é assado. Portanto, assado é o novo assim." Ou então: "Eu gosto disso. Fulano gosta daquilo. Logo, eu não gosto de fulano". Ou ainda: "Considero isto ruim. Porém sou adepta disto. Assim, o isto que faço é diferente e bom". São umas pérolas da lógica que vou te contar, agridem até a trigésima geração passada e futura da espécie humana.
Argumentar é algo aparentemente instintivo, até mesmo porque sempre encontramos uma boa razão para o que queremos defender. Agora, encontrar argumentos que sejam racionais, fundamentados e que respeitem algum princípio básico da lógica: indução, inferência ou simples dedução, não tem me parecido tão fácil assim. Na verdade, tem me parecido algo cada vez mais relegado ao esquecimento, como se a facilidade para escrever e publicar o que se pensa nos eximisse de trabalhar a qualidade de argumentação. Ok, eu posso justificar minhas idéias para mim mesma da maneira mais precária do mundo. Mas e para os outros?
Como diria meu pai, todo mundo pode escrever o que quiser e bem entender afinal de contas " o papel aceita tudo". Poder, pode. Cada vez mais. Mesmo pobre, raso, incoerente e repleto de clichês. E até vai ser lido, elogiado, reafirmado já que boicotar a lógica é um dos fatores que mais aglutina gente ( mais ou menos como se juntar com a turma para colocar uma agulha na cadeira do professor, coisa que dificilmente teríamos coragem de realizar sozinhos). Mas é desrespeitoso com quem está aberto a escutar. Auto lá, rapaziada ! Tem gente aqui genuinamente na escuta. A maria aqui não vai com as outras, não. Ao menos não sem uma boa estratégia de convencimento.

Sinto um cheiro de superioridade e preconceito no ar. Se você quer ser bem vinda na blogolândia, meu conselho: abaixe a sua bola. Esse tipo de postura não é bem vinda não, querida.
ResponderExcluirOi Flávia, poxa, que bom vc por aqui eu já estava começando a ficar nervosa.
ResponderExcluirEu também, amiga, desde aquela época do multiply faço e refaço blogs por causa destas chateações. Mas acho que a gente não pode desistir, sabe? Eu mesma morro de saudades do seu blog cheio de receitas maravilhosas e do modo simples, engraçado e verdadeiro que vc escreve. E o saldo, apesar dos pesares, é sempre positivo. Obrigada pelo seu apoio e tantos anos de carinho :)
E anônimo, não sentirei sua falta porque não sei quem vc é e do pouco que sei, não gosto. Mas noto que vc deve achar que audiência é a coisa mais importante do mundo. Já para mim o importante é encontrar gente que se sente tocado ou identificado com o que digo aqui, criar diálogo. Há blogs bons na blogolândia, muitos, descubro um novo todo dia. Por isso estou aqui. Eu não sei o que tanto te incomodou no meu texto- ênfase na palavra MEU- mas averiguaria se fosse comigo. Teve uma carapuça aí que foi seu número exato.
E olha só como são as coisas, já dizia minha vó, "em boca fechada não entra mosca": De fato eu engoli uma letra em VOYER e não vou corrigir em nome do respeito ao ato falho. Mas a grafia correta é VOYEUR. Pode acionar o seu google aí, eu tb não conto pra ninguém!
( mas tô morrendo de rir, pode apostar)
Beijomeerra.