segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Vintage mistakes

Tem uma frase que sempre que eu leio ou escuto me causa uma sensação muito engraçada: "Eu amo o vintage".

É uma frase generalista demais  para ser tão disseminada e reproduzida com tanta naturalidade, sempre me causa calafrios. Porque dizer eu "amo tudo que é vintage" significa tb correr o risco de se aproximar demais de manifestações culturais e históricas que influenciaram a moda mesmo sendo nefastas, como primeira guerra mundial e as calças, ou os tempos da ditadura e seus maiôs,  ou de estarmos fora do mercado de trabalho e condenadas a assar bolos - cupcakes? - eternamente, ou da vida sem anticoncepcional e sem sutiã, e por aí vai. Mesmo dentro do contexto da estética vintage, estritamente, há coisas que jamais pensaríamos em prezar  a não ser que sofrêssemos uma lavagem cerebral turbinada por milhões de dólares ( e como isso é frequente...) como, sei lá, o corte de cabelo à la Chitãozinho e Xororó, por exemplo.


Eu fico especialmente incomodada porque se fôssemos rotular o meu estilo de vestir eu acho que rapidamente ele seria qualificado como vintage. Mas eu sou do tipo de pessoa que acha que existem duas categorias de roupa no mundo: as bonitas e as feias. O que é bonito, sempre vai ser. Estampas de bolinha, cinturas marcadas,  cintura no lugar da cintura, rendas, alfaiataria, saias godê, vestidos pretos, mini florais,  influências militares, colar de pérolas, óculos escuro modelo Jackie O., etc. E o que é feio, minha gente, que me desculpem as wet leggings e saruels da vida: é feio. E não adianta chamar de vintage e empregar milhões e milhões de dólares numa "releitura" do neon ou dos óculos de grau dos nerds dos anos 80 ( by the way, para quem de fato foi nerd e míope nos anos 80 e obrigatoriamente teve que usar os óculos da Ugly Betty por falta de opção, esta modinha chega a ser ofensiva) pregando  que "os anos 80 são o novo vintage".

Ainda hoje sinto uma espécie de vergonha alheia quando vejo alguém usando um wayfarer, a mesma que sentia até alguns anos atrás quando confrontava minhas próprias fotos da adolescência. Outro dia fui ao clube e tinha uma senhora moderninha usando viseira e óculos colorido, mal pude olhar pra ela. Nunca vi ninguém ao vivo com uma wet legging mas acho que de tão constrangida ficaria chateada. Nos anos 80 não havia sido inventado ainda o cotton-spandex - a cujos inventores devemos nossa alma mas ao contrário disso, os renegamos em nome do new vintage - que é o que salva nossa vida em muitos sentidos. Até então tínhamos que nos contentar com as camisetonas largas ou a lycra. Sim, por isso tudo que era justo brilhava. Porque não tínhamos escolha.

A humanidade vai encontrando saídas, tecnologias que fazem o mundo mais fácil e mais bonito. Mas quando finalmente isso, pelo qual tanto se batalhou  e em que tanto se investiu, torna-se acessível a todos, ah não pode, o bonito é  a releitura do retrocesso.

Eu não apregôo o vintage, apesar da minha alma canceriana. Eu amo o tecnológico e a vanguarda que conservam e melhoram a beleza e a elegância.

Don't get me wrong.

4 comentários:

  1. Bem, eu gosto de vintage, ou de retrô, se preferir. E quando digo isso, me refiro ao aspecto "cultural" e não estritamente histórico. O termo vintage, que nem é sinônino de antigo, é uma expressão referente ao cultivo e tratamento de uvas para confeccionar vinhos. Mas foi tomado emprestado pela galera da moda, decoração e música pasa designar os objetos antigos dessas áreas. Em termos técnicos, para quem trabalha com isso, vintage são as peças antigas messssmo, e não as releituras. Essas passaram a receber essa nomenclatura a uns 5 anos, talvez, mas informalmente.
    É claro que ao dizer que amo o vintage não estou me referindo à guerra ou à repressão vivenciada pelas mulheres, e sei que meus leitores são inteligentes o suficiente para compreender isso.
    E a vanguarda tb me agrada muito! Gostar de uma coisa não exclui a outra.
    Belo, Feio são conceitos extremamente subjetivos, por isso relativos, tanto no que diz respeito ao retrô quanto em relação ao ultra moderno.
    É muito bom saber que há espaço para todos os gostos e preferências! Na minha opinião, a diferença é preciosa! Identidade é tudo!
    Bom tb poder tecer esse diálogo!

    Grande beijo,

    Aline

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  2. Oi Aline!
    Super legal vc tomar seu tempo para me ler e ainda se dar ao trabalho de comentar.
    Acho que vc realmente captou a questão central: subjetividade. O que é belo para uns, é feio para outros. E nem tudo que é vintage, é bom ou belo por ser vintage.
    Quanto à nomenclatura, vc deve ter notado minha implicância com o abuso generalista de algumas ( muitas) palavras. A palavra é múltipla de sentidos, nisso reside sua riqueza, mas é trabalho do escritor lapidar a palavra para ser o mais fidedigno possível ao sentido contextual. Nisso está a riqueza do escritor, a despeito de quem o lê-eu acho.
    Não sabia da etimologia relacionada com os vinhos, muito bacana, acho que pouca gente conhece, mas acredito que deva ser também uma associação com a "idade" das uvas ou do envelhecimento do vinho, não?
    Muito obrigada pelo dedinho de prosa, eu adoro também.
    Beijos

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  3. Morri agora. Achava que só eu odiava Wayfarer e estava só no mundo. Me senti acolhida, obrigada!

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  4. Não Joo, vc não está sóóó!!! Wayfarer me deixa constrangida pela humanidade. Basicamente.
    Beijos, sou sua fã!!

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