segunda-feira, 8 de março de 2010

Reflexões sobre as reflexões

Fiquei muito, mas muito tocada mesmo com este comentário que foi postado ontem anonimamente em referência ao meu texto REFLEXÕES sobre o look do dia.  Tanto que precisei voltar ao tema. Como sou autora de um espaço de mídia, público e livre, tenho alguma chance de formar opinião e neste caso achei que seria válido replicar e alongar a conversa. Se uma e apenas uma pessoa que ler este texto puder refletir um pouco sobre as coisas que serão aludidas, já dou minha missão por bem sucedida. 


Segue o comentário onde eu destaquei e enumerei em vermelho as passagens que considerei mais dignas de serem esmiuçadas:


"Para mim vc é uma recalcada (1)! Não foi aceita na blogolândia mesmo (2), pq é uma chata (3)sem tamanho! E passa a vida atacando quem não sabe nem da sua existência. Ou, se sabe, ignora. Todo mundo quer ser visto, senão não teria um blog. Vc quer ser vista, tem necessidade de chamar atenção. E seu método é triste, amargo. Criar polêmica é só para quem sabe, a única coisa que vc consegue com esse tipo de post é arrancar gargalhadas de muita gente (alter-ego apoiando não vale, viu?). 

E, antes que vc comente do fato de as pessoas que não gostam de vc estarem vindo ao seu blog, vale lembrar que nem isso é mérito seu.
Nós só visitamos seu blog por causa das roupas que vc vende (4). É como visitarmos a Renner, a C&A ou a MBE. E lá, a gente também não tem o menor interesse pelas amarguras chatas das vendedoras(5). Portanto, faça oq vc sabe fazer: venda roupas(6). Ou procure um analista, caso contrário, vai perder até as clientes(7)

Passar bem."


(1) A comentarista começa dizendo que eu sou uma pessoa recalcada como se isso fosse uma característica ruim da minha personalidade. Acredito que  ela não tenha intimidade com as obras de Sigmund Freud,  usou o termo no sentido mais  vulgar e  quis dizer que eu não faço coisas que gostaria de fazer. No que de fato ela tem certa razão. Eu não faço tudo que gostaria de fazer justamente porque tenho limites éticos e me preocupo com as consequências do que faço. Não comento anonimamente, não faço intrigas, não tiro vantagem de ninguém. Também por motivos éticos não puxo-saco e não estou aqui para trocar favores com ninguém. E não posto looks do dia. O que não significa que não  tenha vontade de fazê-lo. Todos nós temos vontades, muitas,  de roubar, matar  e pichar prédios. Mas é justamente o recalque que nos impede de fazê-lo na maioria das vezes.

(2) Não vou falar sobre este planeta Blogolândia porque ele não existe, é fantasioso e me sinto ridícula usando este termo. Vou falar sobre o que vem antes na frase: " você não foi aceita...". Em que tipo de lugar precisamos ser aceitos? Num clube? Sim, compramos uma cota e nos tornamos sócios, o dinheiro paga a pertinência. Numa gang tipo skinheads? Também, mas neste caso o que compramos é pago com nossa anuência a certos comportamentos inenarráveis. De resto, quero dizer, no resto do que tange o direito fundamental de livre expressão, reunião e associação, eu creio que dizer que alguém não é aceito em virtude de alguma característica pessoal do tipo raça, cor, sexo, religião ou filiação filosófica seja crime. Mais ou menos como aconteceu no holocausto.

(3) chata é um termo muito subjetivo. Eu acho muitas coisas que são publicadas por aí extremamente chatas. Empobrecidas, sem sentimento, sem alma, tediosas, feias,  sem nada a acrescentar, em resumo, muito chatas. Tão sem graça que nem me despertam vontade nenhuma de comentar, que dirá anonimamente e com afeto. E como tudo que é subjetivo demais,  a palavra chata perde o poder de argumento intersubjetivo e se torna muito, muito chata como qualificador. Eu sou chata, Fernanda Young é chata, Carol Dieckman é chata. Enfim, que chatice.

(4)  Esta é a frase que tirou o meu sono. E pensar que este tipo de gente é tão comum e circula livre por aí. Existe uma coisa básica da maturidade e do caráter que se chama fidelidade ideológica. Funciona assim: Você não curte um pessoal que defende por exemplo, que homens são melhores que mulheres. Só que- ai que azar!- acontece que eles são os únicos revendedores do seu shampoo predileto. E é exatamente aí que o mundo se divide em dois grupos: os que vivem pelos cabelos e  comprarão o shampoo dizendo : " ah, que mal faz, é só um shampoo!!" e financiarão o crime, o racismo, o machismo ou o qualquer uma dessas coisas nojentas. E os que são guiados por um princípio maior, mais nobre  que abrirão mão de uma pequena satisfação pessoal em nome de uma ideologia, de um princípio ético em que eles acreditam fortemente. 

(5) e (6) Este é o tipo de pensamento de quem acha razoável atear fogo em índio. Sabe que as vendedoras também são gente? Apesar de estarem ali circunstancialmente para nos servir elas são iguais a nós. Tem amarguras, chatices, senso de humor, direito de expressão e vez ou outra alguma coisa interessante a ensinar.  Que bom é vivermos de maneira tão diferente da que vivem os indianos onde as castas dão determinadas ao nascimento e o preconceito quanto aos pertencentes de castas inferiores, indelével. 

(7) Esta ameaça é também muito típica de quem acha que o mundo está aí para trazer-lhe os seus sapatos. Não, voce está equivocada, eu não perco clientes nunca. Porque para mim a palavra perda só se aplica a coisas mais substanciais da vida e não a clientes, especialmente deste naipe. Isso não é uma ameaça para mim. Quem perde é gente como você para quem eu não vendo nem uma meia e quem jamais teria acesso por si só  a coisas bonitas e altivas da vida, inclusive roupas.  Deve ser por isso que você posta anonimamente. Não se engane, eu não sou do tipo que se vende por um shampoo ou por aprovação de gente covarde e mal-criada.

Estes comentários não são inofensivos. Estas pessoas não podem ter a última palavra. A minha filha vai ficar neste mundo, não dá para deixar passar. Depois a gente se  pergunta como tantas pessoas são capazes de se suicidar conjuntamente em nome de uma seita cega ou de apoiar os princípios nazistas sem questionamento. Bem, é exatamente assim que se começa.

Gente, os comentários estão desabilitados neste texto porque isso aqui não é uma democracia. Também não é palco para a burrice e o desmando alheios e irrecalcados. Ainda chegará o dia em que simplesmente ignorarei este tipo de coisa ou melhor, em que  este tipo de gente terá se extinguido. O blog seguirá com sua programação normal.  Eu só preciso recobrar a fé na humanidade.

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