Como questões sobre virtualidade, blogs e relacionamentos continuam reverberando em mim, vou continuar a série ( saga) de reflexões.
Uma coisa que me mobiliza muito é justamente a questão dos relacionamentos virtuais. Me mobiliza porque eu os tenho muitos, há muito tempo, e constato com tristeza que, ao longo do tempo, de muito tempo, raramente eles tem um desdobramento feliz.
E eu penso muito sobre isso.
Amizade virtual já começa com um nome que me aporrinha. Porque o sentido é duplo. A expressão tanto pode ser usada para se referir a uma amizade que foi construída via internet. Ou cair muito bem para designar uma amizade fantasma, do tipo frágil ou inconstante e que existe somente em certos contextos. E acho que essa ambiguidade, por mais cruel que pareça, não é a toa. Ela realmente expressa um perigo das relações virtuais, que é justamente esse da inconsistência, da impermanência.
Li recentemente e acho que foi em um blog mas, desculpem, não me lembro qual, que ao contrário do que pensava o escritor, um verdadeiro amigo se reconhece não nos momentos difíceis, mas nos momentos de sucesso. Segundo ele, é muito evidente que quando estamos passando por alguma dificuldade apareçam muitas mãos amigas. Já não acontece o mesmo em tempos felizes.
Pensei e pensei sobre isso. Tentei. Mas não concordo. Aliás, não concordo com nenhuma das duas vias. Nem que amigo se reconhece em tempos difíceis e muito menos em tempos fáceis. Nos tempos fáceis é mais ou menos como canta Gal Costa: "quando a gente está contente nem ficar contente a gente quer, a gente quer é viver" e não ficar pensando se tem ou não amigos.
Para mim amigo é aquele que toma seu partido consistentemente, ao longo de diversas situações, fáceis e difíceis. Não interessa se é virtual- embora os virtuais, na minha experiência, sofram mais radicalmente do mal da neutralidade -, se é da balada, se é do trabalho, se é de infância. Amigo é aquele sujeito que toma suas dores sempre e especialmente quando você está errado. Sim, porque ficar do nosso lado quando temos razão é super fácil. Mas ficar do lado de quem está, assim, digamos, um pouco equivocado, aí é que são elas. Eu assumo para mim que tomar partido de um amigo não significa necessariamente concordar com ele. Você pode até discordar, chamar num canto e discutir a relação ou dar um bom puxão de orelha. Mas isso já significa que vc está do lado dele e comprou o pacote completo.
Sabe aquela conversa de "sou sua amiga mas ó, eu não sou obrigada e escolher, também jogo no time adversário" ? Detesto. A realidade da vida é que todo mundo está o tempo todo um pouco equivocado sobre alguma coisa. Você, sua mãe, seus amigos. E se você espera ficar do lado "certo" ao tomar o partido de alguém, você não conta. Você é de fato e de direito alguém VIRTUAL. Você existe mas não tem peso, massa e não faz diferença. Não podemos contar com você porque você some e aparece como uma holografia e nunca sabemos direito quem você é.
Nunca tomar partido é o que eu considero a grande utopia ingênua da contemporaneidade. Identifico que há uma idéia mais ou menos generalizada e mais ou menos hippie por trás disso que é : "eu sou da paz, não brigo com ninguém, quero mesmo é ser feliz". Como se isso fosse possível sem algum tipo de aniquilamento - em geral da SUA individualidade. Acontece que a paz, e meus amigos diplomatas vão ficar me devendo uma salva de palmas, não é a ausência de conflitos, já que isso seria humanamente inviável. A paz é a manutenção constante de conflitos particulares para que eles não cheguem a formar uma guerra. De modo que "eu sou da paz" significa exatamente não ser bonzinho e amigo de todo mundo. Ser da paz significa escolher algumas brigas e algumas pessoas e tomar a defesa delas. E, claro, no outro extremo, não declarar guerra terminantemente a nenhuma pessoa e a nenhuma causa.
Tudo isso para dizer que eu observo as turmas virtuais com certo ceticismo. Eu já tive relacionamentos virtuais que se tornaram não-virtuais no sentido de terem passado para encontros e convivência além da internet, mas que jamais perderam o seu caráter de virtualidade, se é que vocês me entendem. E também acredito que seja possível jamais sair da internet e fazer com que um relacionamento internético transcenda a virtualidade. No geral, meus relacionamentos "virtuais "mantiveram sua existência enquanto havia interesses em comum e principalmente, ausência de diferenças. Não há necessariamente nenhum mal nisso desde que mantenhamos em mente que aquele relacionamento tem o perigo de ser restrito apenas àquele contexto. O problema é que somos todos humanos, não salva ninguém. E no fundo queremos ser amados sob qualquer contingência.

Amo ler, faço isso muito, várias vezes ao dia, leituras diversas, temas aleatórios, leio até receitas que nunca irei preparar...rsrs...é um gosto, um vício.
ResponderExcluirMas, enfim, sempre que venho aqui (leia-se, todos os dias), e encontro uma "reflexão" como esta, penso. Será que as pessoas estão realmente entendendo o que se diz por aqui...penso que não. O que é uma pena...há tantas mensagens nessas entrelinhas...
Ah se as nossas "queridas blogueiras" entendessem...
Inclusive Maura, discordo totalmente do "não ser aceita na blogosfera", até porque a internet é um espaço ilimitado...não tem rótulos, não se resume a um grupinho...(aliás, acho que algumas meninas acham que só existe blog de (moda?)rsrs...)
(helloOOOO...existem MILHARES de pessoas no mundo), como assim não aceita na blogosfera???
A não ser que se ache REALMENTE que 50 blogs que se visitam mutuamente e faz uma média entre si de 20 a 30 coments diários (sempre as mesmas pessoas) é o verdadeiro e incontestável conceito de aceitabilidade.
Eu, discordando daquele infeliz comentário, tenho certeza que a MAIORIA dos seus leitores, assim como eu, não tem blog, são simplesmente pessoas que gostam e se distraem vendo, lendo, e/ou comprando coisas legais.
Isso que é o bacana...sem precisar pagar pedágio, nem bajular, ou defender "amigas" virtuais. Soa bem mais sincero, eu acho.
Nunca me submeteria a uma "via crucis" todo santo dia pra me manter bem aceita, ou vista, ou "amada" em blogolândia ou seja lá o que for.
Que bom que você é como é.
Sinceramente, sou tua fã.
Bjs.
Cris.
AHÁ! Agora eu concordo! (e grande M.., né? ehehe). Embora eu tenha excelentes amigos que começaram no virtual, sendo a própria Loo um deles, ultimamente, como já lhe disse, ando separando a pessoa física da jurídica. Bjs!
ResponderExcluirTem uma música da Simone q ela fala do amigo, é linda, linda, linda, linda! Chama: Amigo é casa.
ResponderExcluirAmigo é Casa
Simone
Composição: Capiba / Hermínio Bello De Carvalho
Amigo é feito casa que se faz aos poucos
e com paciência pra durar pra sempre
Mas é preciso ter muito tijolo e terra
preparar reboco, construir tramelas
Usar a sapiência de um João-de-barro
que constrói com arte a sua residência
há que o alicerce seja muito resistente
que às chuvas e aos ventos possa então a proteger
E há que fincar muito jequitibá
e vigas de jatobá
e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de resedás
não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar
que os cabelos brancos vão surgindo
Que nem mato na roceira
que mal dá pra capinar
e há que ver os pés de manacá
cheínhos de sabiás
sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis
choro de imaginar!
pra festa da cumieira não faltem os violões!
muito milho ardendo na fogueira
e quentão farto em gengibre
aquecendo os corações
A casa é amizade construída aos poucos
e que a gente quer com beira e tribeira
Com gelosia feita de matéria rara
e altas platibandas, com portão bem largo
que é pra se entrar sorrindo
nas horas incertas
sem fazer alarde, sem causar transtorno
Amigo que é amigo quando quer estar presente
faz-se quase transparente sem deixar-se perceber
Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar,
se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha
e oferece lugar pra dormir e comer
Amigo que é amigo não puxa tapete
oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem
quando não tem, finge que tem,
faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.