Eu nem sei dizer quantas vezes na vida fui "xingada" de intelectual, nerd, c.d. f., cabeção, name it.
Eu não tenho drama com isso. Já tive, muito. Na adolescência era difícil destoar- por qualquer razão que seja, não é? -, ser introvertida, gostar de ler e tirar boas notas sempre, mesmo quando eu tentava me nivelar. Era difícil, mas não a ponto de ser uma questão que me mobilizasse a ser de outra forma. Acho que isso se deve ao fator estrutura familiar. Minha família é grandona e simples, iletrada - mas não inculta- e meu grande amor. Para eles era muito bonito eu ser inteligente, motivo de orgulho, ainda mais por eu ser uma menina (sim gente, uma moça intelectual no interior de Goiás é uma coisa aberrante). Aliás, são eles meus maiores entusiastas ( oi paiê, oi tia'tônia!). E se eles ficam felizes, eu também fico, até hoje é assim.
Voltei a ser chamada de alguma coisa que me soou parecido com o lugar que ocupei na adolescência: pseudointelectual ou intelectualóide. É interessante este troço de blog, a gente se abre, involuntariamente ou ao menos, inconscientemente, a questões que a gente já tinha resolvido láááá na pré-história da fundação de nós mesmas. Bom, e apesar dos prefixo e sufixo mudarem completamente o sentido original, pelo visto é tudo a mesma coisa : a intenção é pejorativa e destituidora. Querem dizer que voce está "bancando a intelectual" e, o que é mais grave, destoando. Eu acho muito engraçado o termo usado neste sentido já que, intelectuais somos, ou deveríamos ser, todos nós, seres racionais. E também porque na minha vida de intelectual di cum força que se aperfeiçou muito da adolescência pra cá, eu aprendi a atentar para a letra e os sentidos originais e derivados que as palavras tem. Mas fico, desde sempre, matutando o que é que que se vê de tão ruim num intelectual.
Então, motivada por esta neo qualificação sempre igual sempre diferente, comecei a pensar: o que faz de alguém um intelectual de verdade, se é que a gente pode inventar esta classe?
Uns dirão que os intelectuais verdadeiros são os acadêmicos, literatos, cientistas e doutores de modo geral. Aí a intelectualidade estará ligada a um reconhecimento social instituidor, tal como uma Universidade ou Associação de pares, como a Academia Brasileira de Letras.
Eu até que acho este critério bem válido para se julgar a intelectualidade de alguém. Afinal, tenho certeza absoluta que ninguém sai de um doutorado sem merecer ser chamado de intelectual ou ao menos, intelectualizado. Mas como todo critério, tem seus furos, e neste caso o furo pode ser bem grande deixando escapulir a sabedoria dos iletrados.
Eu, no fim das contas, fico com Sócrates. Prefiro chamar de intelectual quem é socratiano ou seja, quem segue o método socrático de desconstrução de sofismas. A maiêutica, método pelo qual Sócrates deu a vida em um cálice de cicuta, significa, basicamente, perguntar. E levar ou induzir a pessoa perguntada ( que pode ser a gente mesmo), por ela própria, ou seja, por seu próprio raciocínio, ao conhecimento ou à solução de sua dúvida (wiki). Para então endossar a conclusão socratiana e a mais verdadeira de todos os tempos: " Quanto mais sei ,só sei que nada sei".
Intelectual, para mim, é quem tem coragem de perguntar ou quem aceita ser arguido. E aceitar o convite para a arguição significa sustentar seu argumento e manter a elegância, sem apelar ou partir para a pessoalidade ou baixaria. Como a gente dizia quando era criança : Apelou, perdeu. Simples, como tudo que é importante.

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