sábado, 27 de novembro de 2010

O amor é um escândalo de "sim"s


Quem foi que disse mesmo que o não já está pronto dentro da gente?



Maior verdade do mundo. O não está sempre ali, no automático. A manutenção da ordem e da economia psíquica, o não é o partido da situação.  O não é de uma força muito digna mas não é revolucionário.



Talvez por isso- pra manter a farsa- o não seja super valorizado. Quem diz não é casca grossa. Punk e hardcore. Bate a porta e sai gritando não, não, não e não. Tem personalidade. Forte e atirado. Se joga ( não importa que seja do precipício, suicídio, sincericídio ou homicídio). Corajoso. Irreverente. Original. Louco.  Uau, que escândalo. 



 Tá bom. Essa é a maior lorota do mundo.

  

Ser punk de raiz é receber, aceitar, deixar. Sim, dizer sim, como dizem que Maria disse a Deus "Faça-se em mim...". Sim, como quando um passarinho pousa bem de levinho no ombro de um bicho, que deixa. E fica quietinho como se isso fosse  fazer durar mais. O amor, aquele que faz histórias lindas, é assim: uma sucessão de sims escandalosos e chocantes, de tão suaves e despretensiosos. Um dia  a gente está em casa de bobeira e um sujeito passa na janela e chama: vamos tomar um café? E você pensa na violência deste mundo, na novela pela metade, e no dever de casa por fazer. Pondera e diz: Sim. Sim. Mas como assim, que bobagem, vcs nem tem dinheiro, nem paixão, nem se conhecem, nem  tem idade, nem tem juízo, nem isso, nem aquilo... Sim é uma coisa muito mesmerizante e espalhafatosa. E endiabrada, vá de retro. Sim é uma coisa muito perigosa, afinal, pode mudar sua vida e isso não é inofensivo. E, poderoso e come-quieto como ele só, em uma fração de segundos, o sim mais bobo do mundo já faz maravilhas incríveis.

Hoje em dia, a cada vez que eu digo um não - ou que recebo, já que dado o adiantado do meu processo de evolução karmica, eu digo cade vez menos e recebo cada vez mais e mais bárbaros nãos- eu gosto de imaginar que há um sim, com o dobro do tamanho, mais radical e mais barbarizante, me esperando na próxima curva da estrada. E saber que um sim enorme- pois fica proporcionalmente maior à medida que cresço com os nãos -, generoso e fértil me espera, sempre torna os nãos menos indigestos. Na verdade, o sim é também o sentido do não. É dizendo e recebendo nãos que a gente se apronta e se burila pra se tornar um sim, que é o que a gente mais quer.


Essa eu sei que foi Caetano quem cunhou: "Coragem grande é poder dizer sim". Muito punk, como sempre.


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Eu sou bonita, desculpa?

Até uma certa idade na vida, tudo que a gente quer é ser bonita. E, como beleza é um conceito felizmente muito amplo, apesar de todas as tentativas de restringí-lo, vamos definir o que eu chamo aqui de bonita: atraente ao sexo oposto, nos moldes do que a sociedade valoriza.
Sim, aos 5 anos a gente quer ser a Cinderella e não se envergonha disso. E quando perguntam o que a gente vai ser quando crescer a gente declara logo: Modelo ( no meu tempo, dizia-se "Miss"). A gente veste um vestido rodado, coloca maquiagem, pinta as unhas e se olha no espelho exatamente como fizeram as egípcias 4000 anos antes de nós. E exatamente como fazem as meninas de hoje.
Aí um dia a gente desiste desta missão impossível ( a de ser bonitona) por uma das duas vias: ou a gente se convence de que é bonita e fodona, mesmo, e para de tentar convencer qq ser humano desta verdade irrefutável e vai cuidar de outras coisas na vida; ou a gente é daquelas que vai ser cool, intelectual, descolada ou qq coisa dessas e vai dizer que não liga para os códigos sociais de aparência. E isso é verdadeiro, pelo menos eu acredito que seja possível. E mais: eu acho que são duas opções éticas igualmente legítimas, diferenciadas apenas pelos determinantes existenciais. Eu acho isso MESMO. Aliás, se tem uma coisa que eu prezo é a liberdade de desenvolver sua opção ética com a estética que você preferir ou conseguir. Você, enquanto subjetividade única, tem direito a isso.
Só que acontece que lá na frente, eu que fiz a minha escolha baseada nas minha vivências pessoais, naquilo que minha estrutura psíquica e cultural comportava, e respeito a dos outros, porque assumo que o mesmo se deu do lado de lá, vou ser simploriamente circunscrita. Eu não posso ser intelectual. Eu não posso ser alternativa. Eu não posso ser libertária, politizada, depravada, descolada, poliglota.  Não posso também ser amiga, companheira, sensível e forte. Não posso, porque lá atrás eu escolhi ser, bem... mais uma menina bonita. E tenho que escutar que discrimino as pessoas pela aparência e sou superficial. Ah sim, isto é lógico e muito justificável: eu sou bonita. E ainda que meninas espertinhas e descoladinhas possam ser eventualmente bonitas, uma menina bonita nunca pode vir a ser uma coisa radical, coitada. Olha bem, ela  já é bonita, não tá bom? Bem, estaria em qualquer espécie do reino animal, mas nós somos criaturas extremamente insatisfeitas e desejantes.
E então, chega aquela altura da vida em que não, você não quer mais ser bonita. Você não usa maquiagem, não veste roupas justas e nem corta o cabelo. Você usa óculos e olha para o chão. Você precisa, mais do que tudo na vida, convencer as meninas fodonas ( pq são elas quem, no fundo, mandam no mundo já que: 1. são mulheres; 2. os homens não se sentem ameaçados por elas) de que você não é só um rostinho bonito. Você é gente. E até talentosa. E nem tente o caminho da argumentação: as meninas bonitinhas sempre tem esse discurso batido de que tem um coração. Ninguém vai comprar seu drama barato e isso é muito justificável, afinal: você é bonita, sofra.
Só que eu já fui com o milho, voltei com fubá, levei o bolo e tô agora buscando os farelos. Já fui bonita, já não fui, já me achei linda e já não me achei. Isso já foi importante e já não foi. Se eu disser que não me acho bonita ou que a beleza tenha sido dispensável em algum momento da minha vida, acho que estaria dizendo algo infantil. eu acho beleza muito bom. Eu gosto de gente bonita ( ainda que, pra desgosto de muita gente, o meu conceito de beleza pessoal- que eu me dei ao luxo de desenvolver no dia que entendi que essa coisa toda de beleza era muito óbvia- seja bastante excêntrico), eu gosto que me achem bonitinha, isso me deixa segura, isso me permite ir além. Essa é minha estrutura subjetiva, eu não dou conta de outra coisa. E nem quero. Prefiro que eu possa passar como se fosse qq menininha lindinha e fofinha do mundo. Porque, isso é o que eu de fato sou e essa é a grande sacada: vai chegar um dia na vida em que não vai nos sobrar nada além de fatos. E você vai se agarrar a eles, com unhas e dentes. Porque todos esses conceitos menos generalizáveis: cool, intelectual, fodona, hippie, desapegada, alternativa vão virar areia fofa sob seus pés. Basta você mudar de país, de carreira, de círculo social. E você vai querer ser só a coisa mais obviamente agradável da forma mais primitiva possível porque sim, nós somos animais altamente primitivos movidos a sexo e  raiva.
E assumindo- como eu assumo de coração- que todo mundo pode ser bonito, se assim escolher e se a isso se dedicar, vocês vão me desculpar, meninas: eu sou bonita e acho que todo mundo devia ser também. É fundamental ( no sentido mais radical do termo).


Il fait-moi l'amour.

Make me sleep
Make me a baby
Make me sick
Make me long.
Make me bloom.
Make me stick.
Make all my butterflies sneeze.
Make me wonder.
Make me settle.
Make me neat ( cause I'm a mess).


Make me fall (and I'm not that easy, at all.)

Make me write.
Make me songs
Make me uneasy.
Make me beg.
Make me brave.
Make me loveable.
Make me dare.
Make me still.
Make me come back.
He makes me lack.
Just to fill me up.
Yeah, he's all that.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sonhe com ela.

Tem uma coisa que toda mulher faz ( mas se vc é homem e faz também, não se acanhe, é melhor ainda) que é sonhar pelos outros.

Sabe quando aquele nosso ficante da adolescência chega na festinha, vestido ridiculamente, o rosto cheio de espinhas e aquela barba pueril? E o nosso coração quase sai pela boca de amor? Sabe por que?
Porque a gente não olha e vê apenas um adolescente ridículo, como todos os outros adolescentes, inclusive nós mesmas, à época. A gente vê o potencial daquele sujeito. A gente logo pensa como ele ficaria lindo com o cabelo cortado um pouco mais curto. A gente, lá no nosso photoshop feminino, veste um terno no carinha e rasga a camiseta regata- ou o inverso. A gente imagina ele sentado à mesa, enquanto servimos o café da manha e as crianças comem felizes, no melhor estilo margarina ( tá, claro que a gente sabe que isso não existe, mas sonhar ainda pode, não?). A gente imagina ele na cama, do jeito mais gostoso. A gente imagina que ele vai nos presentear com poesias, nos abraçar, nos proteger. A gente também o imagina brincando com os filhos, lavando a louça, fazendo o jantar. A gente vai mudando os cenários, diálogos, figurinos. Careta, fashion, rock'n'roll. Praia, neve, casa dos nossos pais, escola das crianças, hospital.

E quando a gente olha pro carinha de novo, o mais impressionante é que a gente não se sente desapontada. A gente simplesmente acredita que tem o poder de transformá-lo em tudo aquilo. E o pior é que eu boto a maior fé de que temos mesmo.  Só depende de uma única coisa: um sim. Sim, eu recebo seu sonho, eu o acolho. Não se trata - e isso tb é importante deixar claro para os mocinhos - de corresponder as expectativas femininas. Trata-se de se deixar transformar no enquanto da relação. Não dói e nem arranca pedaço, juro.
Normalmente, essa capacidade que nós meninas temos de construir todo este imaginário, nutrí-lo, sustentá-lo é muito mal vista. Os fracos, então, logo apontam o dedo: sonhadora, louca, grudenta, neurótica. Cai na real, se liga.
Acontece que a única diferença entre este homem maravilhoso em cenários paradisíacos e o adolescente que provavelmente nunca vai deixar de sê-lo, é a capacidade que o sujeito teve de se deixar ser objeto de sonho feminino. Simples.
Porque sonho feminino, minha gente, é o poder. A única coisa que o cara precisa fazer é não resistir. O que, ironicamente, é uma coisa bem rara: qualquer projeto mínimo de futuro que a gente comunique a um homem é pretexto para fuga, na grande parte das vezes. Poucos são aqueles que se deixam levar docilmente pelos sonhos. Pouquíssimos são os outros que colaboram no enredo do sonho- mas isso é outra história, eu bem acho que nós mulheres não sabemos muito bem como receber esta colaboração. Sonho de moça só não é mais poderoso porque a sociedade o perverte, desde sempre, e nos conta que sonhar é inútil, que não servimos para nada prático, etc, e nós, infelizmente, compramos a baboseira e acreditamos. 
Mas vai por mim: nem precisa sonhar com ela. Deixe ela sonhar com você. Et voilá.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A listinha dourada.

Eu tenho me lembrado muito daquela passagem do Guimarães Rosa que diz,  segundo minha apreenssão recordada, que com seus solavancos a vida quer da gente é coragem. Essa coragem, para mim, é a de desejar de novo.
Coragem porque a gente nunca pode desejar o mesmo. A gente tem que vir com mais força, desejar maior, mais alto, correr o risco de um tombo mais violento. A gente tem que apostar mais fichas, às vezes, todas.
E até que a gente tenta, no meu caso com muito empenho, não desejar mais. Nada, ninguém, só a morte. Mas acontece que a vida é uma  exímia sedutora. Um dia damos uma risadinha de um programa de TV americano e bobo. No outro compramos um sapato MARAVILHOSO de salto altíssimo que nunca usaremos, mas isso não é importante. O importante é o desejo de possuí-lo e todas as festas incríveis e namorados altos com que aqueles 15cm de salto nos ajudam a sonhar. E no outro estamos aqui, como eu estou, preparando uma lista de coisas que ainda vou fazer por amor.


Eu vou me casar numa igreja pequena, com poucos convidados e um padre comunista.
Eu vou ser acordada de madrugada por causa de uma confissão, um medo ou uma transa. Ou para tudo isso junto.
Eu vou tomar muitos chopps enquanto conversamos muito sobre o sentido da existência e sobre a novela.
Eu vou ouvir: " você é a princesa mais linda do mundo", com veneração.
Eu vou ouvir : " você é muito gostosa", com desejo.
Eu vou ouvir: " ahh camisinha não..."
Eu vou ouvir: " Você me deixa louco", com voz trêmula.
Eu vou ouvir: "vamos ter um bebê?". Insistentemente.
E uma síntese: " Não quero camisinha, vamos fazer um bebê?". Seriamente.
Eu vou tomar muitos vinhos inesquecíveis em restaurantes caros em noites românticas comemorando qualquer bobagem.
Eu vou ser alvo de ciúmes.
Eu vou viajar o mundo, de novo,  melhor, e explorar outros destinos.
Eu vou sentir frio na barriga todos as vezes que ele me olhar daquele jeito.
Eu vou tomar muitos banho junto, de chuveiro, de piscina, de banheira, de mar, de cachoeira.
Eu vou ter sogros e cunhados que me amem - de verdade.
Eu vou ficar grávida e ainda assim, serei desejada.
Eu vou ter um filho de parto normal e vai ser a coisa mais incrível da nossa vida.
Eu vou a praia de biquini bem pequeno ( coisa que a gente não pode fazer sozinha, eu acho).
Eu vou me jogar nos shows de rock semmedo de ser feliz ( ou pisoteada).
Eu vou assistir todas as comédias românticas e também os filmes bons no cinema e de mãos dadas.
Eu vou reclamar do futebol.
Eu vou sentir sono, muito sono e vou dormir aninhada.
Eu vou compartilhar comilanças incríveis nos bares mais sujos do mundo.
Eu vou ser presenteada, ordinariamente, com jantares homemade.
Eu vou achar que a vida é curta para gente conversar tudo que há pra ser conversado e para transar de todas as formas possíveis.
Eu vou dar o padrasto mais amigo do mundo pra Inês.
Eu vou dar um pai de família fantástico e não careta para os meus filhos.
Eu vou trocar um olhar mais denso do que 1000 palavras a cada momento ínfimo de conquista dos nossos filhos.
Eu vou me orgulhar de cada conquista dele e se ele não conquistar coisa alguma, ainda assim vou sentir tesão porque ele é lindo.
Eu vou deixar os filhos com o pai e vou, tranquila, ao salão de beleza ou bater perna no shopping com as amigas.
Eu vou encontrar as crianças alimentadas e de banho tomado quando eu voltar.
Eu vou deixar os filhos com os avós e vamos fugir deste lugar, baby.
Eu vou receber flores mas também não me sentirei ridícula de oferecê-las.
Eu vou dividir as contas de casa mas não a dos restaurantes.
Eu vou sentir vontade de usar todas as minhas roupas decotadas e a minha maquiagem importada.
Eu vou ter alguém que aprecie o perfume e trabalheira que é passar todos os cremes para todas as áreas do corpo todos os dias antes de dormir.
Eu vou encontrar um sujeito que saiba a diferença  entre uma moça elegantemente sexy e uma piriguete que tenta disfarçar sua alma pequena com roupas bonitas.
Eu vou me irritar muito na TPM mas ele vai me suportar com doçura.
Eu vou querer gastar um dinheirão em lingerie que vai ser arrancada sem ser notada.
Eu vou ter brigas barracudas por motivos infantis e vou fazer make up sex.
Eu vou ficar dias de chuva trancada dentro de um apartamento entre chocolates e paixão.
Eu vou provar que um revolucionário pode ser um bom marido.
E não, por mais  chata, gorda, dona da verdade e insuportável que eu seja, eu não vou- for God sake, no- ser abandonada com um bebê no colo.



E aviso aos meus ilustres leitores que esta é uma lista em progresso.

Dê.

Eram mais ou menos três e meia da tarde e eu tinha prova de Teorias e Técnicas Psicoterápicas no dia seguinte. A professora, uma argentina, além de não falar português ainda estava planejando seu casamento: bolos, flores, vestidos eram tema da aula, e que não ajudava muito a entender técnicas de psicoterapia. Isso e o fato de que frequência nunca foi meu forte me deixaram sem saída: já eram três e meia da tarde, aquele horário fatídico em que não dá para ter feito muito mas tb não dá começar mais nada, e eu tinha que estudar, muito ainda.
Não obstante, o telefone tocou e era ele. Não foi exatamente uma surpresa, já que tínhamos trocado uns beijinhos na última festa. Mas eu queria ser a namorada dele e fiquei muito emocionada. E ele convidou na lata: "Vamos a um show de blues hoje à noite? Já tenho os ingressos". Putz. Eu era muito novinha pra ser mais maliciosa. E o que eu disse foi: Não posso, tenho prova amanhã e preciso estudar. Claro que ele achou que eu estava mentindo. Claro. E eu desliguei o telefone e sofria tanto que não conseguia estudar. E o pior: eu não tinha o telefone dele para me redimir, para dizer que sim, eu aceitava ser uma menina má por ele, só por ele.
Mas a vida às vezes é um troço  inexplicavelmente generoso. E o sujeito, num ímpeto de generosidade, me ligou de novo, pra saber se eu não queria MESMO ir ao tal show. Graças. Ele veio me buscar em casa, me lembro que chovia muito e que eu não me atrasei. Entrei no carro e sei lá. O que foi aquilo? Um raio, um caminhão desembestado, uma alma penada? Eu já o tinha visto outras vezes, já tinha até o beijado. Mas alguma coisa clicou ali, naquela hora. Algum pacto de sangue em outra vida, alguma flecha de cupido em outra esfera.
E ele dirigia e a gente não parava de falar, um assunto puxava o outro, falávamos rápido, eufóricos e com chama nos olhos. Na metade do caminho decidimos que não íamos a show nenhum. Quem precisa destes pretextos? E sentamos numa mesa de bar.
Eu me lembro que tomamos chopp e falamos de muitas coisas interessantes. Planos, filosofia, rock, religião.  Mas o que eu me lembro mesmo eram daqueles olhos vivos sobre mim. Ávidos porém tranquilos, grandes, acolhedores, fortes e profundos. Sim, um par de olhos pode ser tudo isso. E eu não sei direito em que termos foi a decisão- acho que a síndrome fatal de boa menina atacou novamente e eu disse que tinha prova no dia seguinte e precisava voltar pra casa- e rumamos para o carro. Daí eu entrei, daí ele entrou. E até hoje acho que este instante é o mais certo de aparecer naqueles minutos de flashback que, dizem, antecedem a morte. O que houve ali não é coisa deste mundo. Ou, é deste mundo de um tanto que não podemos captar com nossa mania racionalista.
Ele me puxou para o colo dele e o beijo demorou uma vida. Um beijo que não acabava nunca porque a gente se esqueceu que existia algo no mundo chamado acabar, separar, individualizar. Eu me lembro de- nos poucos momentos em que pensei- me sentir leve, envolvida, o corpo parecia tão adequado, dançando suave alguma coreografia muito familiar. As roupas sumiram rapidamente, mas não foi violento como o desejo que queimava a gente: ele desabotou lentamente e com uma veneração quase santificadora  cada um dos meus botões.
Sim, era o  nosso primeiro encontro e claro que como uma portadora crônica da síndrome da boa moça isso cruzou a minha cabeça. Ele vai achar que eu sou uma vagabunda, etc, quem é que transa no carro estacionado numa quadra comercial no primeiro encontro?  O negócio é que sou, desde sempre, uma boa moça muito da sem-vergonha  e dou cabo destas censuras com o seguinte e polivalente argumento: se ele achar que eu sou fácil e vagabunda, tudo bem, pelo menos me diverti. Fim.
Além de que, eu nunca entendi esses caras que chamam mulheres de vagabundas. Os homens devem se sentir lisonjeados se uma moça aceita transar, anyway.  Porque moças são moças como eu, ou seja, as devassas, se é que existem,  somos nós. Nós e nossas eternas crises femininas e dilemas muito dramáticos. É preciso ultrapassar uma cultura machista e a auto-estima furada ( bem como a calcinha, muitas vezes) para arriscar o dar, verbo intransitivo. E isso, meu caro, já é coragem que muito marmanjo não vai reunir numa vida.
Então eu, a boa moça devassa, estava lá, nua e sem nenhum arrependimento. Nem sombra. Estava gostando muito e, pra falar bem claramente, é difícil gostar tanto assim. Não é todo sujeito que te inspira assim, sabe? Para uma mulher, estar tão disposta a trocar tantos tipos de fluidos biológicos diferentes sem nenhum tipo de frescura, salamaleques ( que eu gosto muito), é um mérito só.
Então aconteceu. Neste dia e também em muitos outros dias nos 6 anos seguintes. Muitas e muitas vezes, sempre empolgadas. E me alegro em engrossar a estatística da vagabundagem de moças casadoiras. 
Não, é bem verdade, a gente não se casou. Não sei bem porque, mas acho que deve ter relação com a pouca idade aliada ao excesso de tesão, ciúme, dramas mexicanos regados a suor, lágrimas e tantas outras umidades...
Mas até hoje fecho os olhos e me lembro daquela sensação mágica, transcendental, de completude, de certeza, de paz, daquela madrugada dentro de um fiat uno em um estacionamento. E isso é um dos pilares que sustenta a mulher sensual ( sim, eu tenho coragem de me dizer assim) que hoje eu sou. E volta e meia me ocorre:  já pensou se eu não tivesse sucumbido? É que, como eu disse lá em cima, a vida quando dá pra ser generosa, arrebenta:  sucumbo e nunca perdi meus ares de boa moça. Minhas prendas, minha doçura,  minha inteligência, minha maternalidade. Porque uma das coisas que aprendi com este episódio- só uma, das tantas que até hoje tento nomear- é que não é preciso escolher: a gente pode ter tudo.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

(for)getting real.

Acontecem duas coisas interessantes toda vez que eu conheço pessoalmente uma leitora ou leitor do blog.  Uma é que invariavelmente eu escuto alguma coisa mais ou menos assim: " Nossa, mas você é tão doce, delicadinha,  linda, etc, é uma fofa. EU IMAGINAVA OUTRA COISA". 

Isso me incomoda. Significa  que para filosofar, ou chutar o pau da barraca ou para ser racional, não se pode ser mulher. E se for, tem que ser feia e grossa. Ou uma coisa, ou outra. Estamos fadados ao raciocínio binário. Nesse caso ele se chama machismo. É tão sutil e tão arcaicamente arraigado que tenho pensado que, pra gente avançar na discussão, é preciso mudar o nome dele.  A palavra já tem um cheiro de azedo que contamina qualquer terreno. Eu voto por retomar aquela idéia de Levi-Strauss e chamar o sexismo de binarismo ou algo assim. 

A segunda coisa que acontece sempre é de, nos primeiros cinco minutos eu me perguntar: poxa,  por que não fizemos isso antes? Sim, porque não marquei um chá-bazar-brechó na minha casa? Por que não trocamos telefone, não saímos pra tomar um chopp antes? Alguns argumentarão: ah, é a distância. Mas não é. Existem aviões, telefones, video conferências. É a resistência. E a fodilhice de esquina virtual.

Sabe a fodilhice de esquina, né? Aquela que nos obriga a postar no orkut nossas melhores fotos do único dia do ano de sol e amigos em viagem linda, a dizer coisas espertinhas no twitter e a compartilhar nosso cotidiano super glamouroso no facebook. Ah, e é claro, a manter o status "busy" no MSN, mesmo que não estejamos fazendo nada de realmente interessante. A esquina agora é virtual.

Ando pensando muito nessas coisas e fico meio chateada comigo mesma. Por que compactuo com isso? Por que não abro a boca na aula pra todo mundo saber que mulher bonita pode ser crítica, inteligente e até feia e chata, que é tudo da lei? Por que não  me revolto, arranco a bunda da cadeira e quebro este computador que sim, é verdade, me angariou amigos, contatos, aprendizado, prazeres, dinheiro, fama ( cof, cof) e badalações mas  já deu o que tinha que dar e tá virando uma bizarrice sem fim? Porque não quero dar o braço a torcer ao binarismo, meu caro Watson.

Tudo bem que virtualidade não é mais coisa de nerds do bem, bons escritores desempregados e gente que está muito depois de esgotar o tempo regulamentar. Muito pelo contrário, a coisa virou de tal forma que me parece hoje um instrumento do lado negro da força. Aqui  se escondem os fascistas, os malucos não-beleza, os sádicos e, mais comumente, aquele pessoalzinho que não quer saber de ninguém, a não ser como suporte pro seu narcisismo. Sim, os fodões de esquina precisam dos baba-fodões de esquina que compram sua montagem triste e alimentam a engrenagem. E que tô afim de colocar meu bloco na rua dicumforça. Pensem comigo: onde estão os nerds do bem e a minha turma? Só podem estar na rua. Ou foram extintos do planeta e eu sobrevivi?

Mas ainda flerto por aqui, porque perder a ternura jamais. E acho que é sempre bom exercitá-la ( a ternura) em todos os níveis. Mas bora pegar um cinema, um dia de clube, uma cerveja? Ou quem sabe alguma coisa menos ameaçadora tipo um café na padoca, assim, de chinelo e sem maquiagem?

Let's get physical, people. Essa coisa de (só) teclar é de neguinho que não banca a presença. E eu sou nerd e tímida e tal mas isso, definitivamente, não me resume. O que mais sou é gente de verdade. E como um bom exemplar da espécie, eu gosto de encontrar gentes. Não era esse o objetivo?

A gente (gente!) perverte tudo mesmo.