sábado, 24 de abril de 2010

Sobre aquela Lya que não é só Lya ( e seus fantásticos maridos)

Eu gosto da escritora Lya Luft. Gosto, mas não amo. Considero-a uma grande poetisa mas não me dou bem com suas crônicas ( na Revista Veja, por exemplo), nem com seus contos e menos ainda com seus romances. Acho que a escrita dela, apesar do vigor feminino, ao mesmo tempo forte e delicado, sofre de uma certa rigidez que não me agrada. Deve ser resquício da sua ascendência alemã.

Eu cheguei a ler o primeiro livro (que eu li) da Lya Luft ( Secreta Mirada, de poesias, que é um livro fantástico) não por causa do seu prestígio como escritora. Como boa psicanalista  que sou,  sempre me sinto tocada pelas pessoalidades das pessoas mais do que por qualquer ofício que exerçam ou sucesso que tenham alcançado. Conheci a Lya Luft porque ela foi esposa  do fantástico Psicanalista Hélio Pellegrino. Como se este fato não bastasse por si só, quando enviuvou do Hélio, ela aceitou o convite de seu primeiro marido (Celso Luft, com quem tinha três filhos e havia sido casada por mais de 20 anos e com quem se casou depois de tê-lo feito desistir de ser padre e largar o seminário): "Lya, agora que você está só...Volta pra mim?". E ela, grande e humana, voltou. Esta pessoa merece meu respeito e admiração e na época pensei, ao comprar o livro às escuras: mesmo que seja ruim, é um dinheiro bem empregado.

Eu gosto desta história real porque ela é uma das ( milhares) de provas vivas de que o amor da vida real é mil vezes mais bonito do que o estático, simplório e sovina amor romântico dos filmes. E de que a gente pode brigar e continuar amando, se separar e continuar amando, trair e continuar amando, casar-se com outro e continuar amando e voltar ou não voltar. E continuar amando. Só porque, como diz Arnaldo Antunes: " O amor é ( também) feio".

E para quem nunca ouviu falar do meu colega de profissão Hélio Pellegrino, segue uma pequena amostra da doçura de seu trabalho como psiquiatra e psicanalista.

"...Lembro-me de uma aula de fisiologia nervosa, no segundo ano. O doente, com tabes dorsal, ao centro do anfiteatro escolar, era um velhinho miúdo, ex-marinheiro, vestido com o uniforme da Santa Casa, onde estava internado. Suas pernas, hipotônicas, atrofiadas, pendiam da mesa de exame como molambos inertes. Jamais me sairá da memória o antigo lobo-do-mar, exilado das vastidões marítimas, feito coisa, diante de nós. Suas andanças pelo mundo, seus amores em cada porto ficavam reduzidos, em termo de anamnese, a um contágio venéreo ocorrido décadas atrás. O velhinho, contrafeito, engrolava o seu depoimento, fustigado pelos gritos de — "fala mais alto!" —com que buscávamos saciar nosso zelo científico. De repente, o desastre. Sem controle esfincteriano, o velho urinou-se na roupa, em pleno centro do mundo. Vejo-o, pequenino, curvado para a frente, tentando esconder com as mãos a umidade ultrajante. Seu pudor, entretanto, nada tinha a ver com a ciência neurológica. Esta lavrara um tento de gala, e o sintoma foi saudado com ruidosa alegria, como um goal decisivo na partida que ali se travava contra a sífilis nervosa.



O velho ficou esquecido como um atropelado na noite. A aula prosseguiu, brilhantemente ilustrada. Os reflexos e a sensibilidade cutânea do paciente foram pesquisado com maestria. Agulhas e martelos tocavam sua carne — esta carne revestida de infinita dignidade, que um dia ressurgirá na Hora do Juízo. Meu colega Elói Lima percebeu, juntamente comigo, o acontecimento espantoso. "O marinheiro está chorando" — me disse. Fomos três a chorar.



Entre lágrima e urina, nasceu-me o desejo de me dedicar à psiquiatria. O choro do velho, seu desamparo, sua figura engrouvinhada sobre a qual parecia ter-se abatido todo o inverno do mundo, tudo me surgiu de repente como o grande tema de meditação, a partir de cuja importância poderia eu, quem sabe, encontrar um caminho. ...".


Dizem que havia uma placa em seu consultório com os dizeres: " Só um louco se analisa com Hélio Pellegrino". Além de tudo, ainda era bem-humorado.




Um comentário:

  1. Eu não conhecia o Hélio Pellegrino não. Mas ele parece ter um estilo parecido com o do Rubem Alvez, que gosto bastante...

    Ótimo post!

    Beijos!

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