terça-feira, 6 de abril de 2010

"Com todo respeito mas o que você diz é apenas o que você diz."*

Se eu fosse entrevistada pela Marília Gabriela e tivesse que escolher, como é de praxe no programa dela, uma frase e uma apenas, para fechar a entrevista, eu escolheria : " O inferno está cheio de boas intenções".
Ditado tão antigo e tão batido que ninguém mais presta atenção nele. Mas ô frase carregada de sentido, talvez se a gente escutasse-a com mais cuidado, evitasse muitas desilusões.
Não quero escrever nada (mais) longo e nem (muito) complexo mas ando querendo há muito tempo falar - e hoje vou apenas começar - sobre esta lição que a vida tem me ensinado: o nosso mundo é o mundo das coisas e dos fatos. Se você ama, acha, pensa, sonha, planeja, intende, torce, dá a maior força, gosta ou odeia: Pouco importa. O que vale aqui, neguinho, é o que você faz. É matar a cobra e mostrar o pau.

Acho que se alguém me dissesse isso há alguns anos atrás eu pensaria: " Credo!". Eu acharia que se tratava de uma pessoa maniqueísta com uma idéia muito olho-por-olho e dente-por-dente do mundo e da vida. Mas acho que hoje eu me tornei esta pessoa.

Eu vejo muita gente boa, bacana mesmo, caindo neste erro. Eu tenho pensado que tem a ver com a influência do nosso tempo. Essa coisa muita rápida, muito virtual, é muito propícia a idealismos, e grupos e amores e coisas...que não existem. Que são poeira cósmica. Alguém poderia então argumentar neste momento: mas não é tudo poeira cósmica? É sim, no fundo, no fundo, tudo é nada. Mas enquanto eu estiver aqui, neste corpo, neste mundo, ninguém e nem nada em que eu acredite vai passar sem o meu PESO. Porque isso sim, o peso da gente é que faz diferença em um ou outro lado da balança. E nosso peso, na grande maioria das vezes,  é tão pequeno quanto o  peso de uma gota no oceano. Isso do ponto de vista do oceano, claro. Porque do ponto de vista da gota, nossa, a vida dela muda completamente se ela chove aqui ou ali.

Isso quer dizer uma coisa muito simples mas parece que não óbvia: que é preciso militar e não apenas gostar. Dizer que eu sou contra o meu salário mas não aderi a greve porque o meu gato estava doente e eu precisava do dinheiro, bom,  é fácil, e no mínimo eu não estou sendo coerente. Quer dizer que se eu amo muito, muito, muito uma pessoa mas um dia ela discordou de mim e ficamos de belém-belém-nunca-mais-de-bem e no outro dia o pai dela morreu e eu...Eu não fui no velório, oras, não estávamos brigadas? Sinto muito, mas isso não justifica.  Este é o ponto da confusão: sentimentos, idéias, percepções são coisas tão voláteis, às quais todos estamos sujeitos de ter um dia e a sentir justamente o oposto no outro, sei lá porque, por causa da TPM, porque meu time de futebol perdeu... Como é que tanta gente toma decisões e justifica  suas ações baseando-se apenas nisso? Como é que podem querer do amor e dos relacionamentos que sejam simples, unívocos para serem duradouros? Amar não é só gostar, sabe?

Amar é gostar E militar. E militar é amar mesmo quando a gente não tá com este gás todo. Mesmo quando parece que não vai dar certo. Mesmo quando não concordamos. É frequentar. Tem dia que a vida é isso: responder a chamada. Não temos nada a dizer, não achamos nada engraçado e nem desgraçado. Mas nem por isso deixamos de frequentar.

* Título extraído de um texto da Martha Medeiros.

3 comentários:

  1. Oi Maura!
    Concordo com o texto.

    Tem uma parte da 1a Carta de São Paulo q eu adoro, ela diz mais ou menos assim:

    (...)
    Se eu gastasse todos os meus bens no sustento dos pobres e até me fizesse escravo, para me gloriar, mas não tivesse amor, de nada me aproveitaria.
    (...)

    O mundo está cheio de pessoas que trazem o sorriso nos lábios e o veneno no coração. Que são doces, contanto que ninguém as moleste, mas que mordem à menor contrariedade.

    beijos!!!

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  2. Dri,

    Que lembrança oportuna, querida.
    Gosto muito das Cartas de São Paulo, muito ,muito :)
    Bjs

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  3. Maura,

    Para militar tem que ter coragem e, infelizmente, as pessoas não a tem...

    Quem tem, é temido, odiado, difamado... aos olhos do mundo, antes ser um ser apolitizado, em cima do muro, amigo da galera, do que alguém com opinião e coragem para dizer o que pensa, para lutar pelo que acredita. Triste, mas verdade.

    Legal ver que mais alguém leva a vida a sério!

    Beijos

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