segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sonhos de uma noite de verão

Ou só porque o pyriguetismo pode ser artístico ;-)

Não é de silicone, tá gente?
(meu eterno agradecimento a 7 for all mankind e a Victoria's Secret e seus push ups imbatíveis )

domingo, 24 de outubro de 2010

Fazendo uma contabilidade grosseira, ontem foi a primeira vez que badalei em uns 10 anos.  Somando os anos de namoro, casamento, separação e maternidade tinha sim uns 10 anos que eu não me acabava de dançar numa buatchy até às 4 da manhã e voltava pra casa de coração leve e com os pés ardendo de bolhas.

E eu tava morta de medo de ir. O meu medo era de querer voltar pra casa em meia hora e concluir aquela coisa fácil: não há mais amor para mim no mundo. De me achar(em) gorda, velha, tiazinha. De ter que ficar me esquivando daqueles carinhas sem loção ( porque com os sem noção a gente até argumenta). Ai que preguiça.

Para minha surpresa, a música era excelente. O lugar era legal, a cerveja tava ótima ( embora eu acabe sempre na marguerita, que funciona mais rápido). Ficou lotado de gente suada mas, que surpresa, eu não achei isso ruim! Gente, que alívio. Minhas duas primas que me acompanhavam arrumaram, cada uma, um gatinho. E eu tive medo e não dei muita ousadia mas conversei com um sujeito bacanudo. Do tipo: quem diria que o primeiro carinha que puxasse conversa ia ser legal? E nem era baixinho.

E tinha pelo menos umas 100 garotas mais gordas do que eu, umas 50 mais velhas e umas 300 mais feias. Aliás, minhas primas -fofas, fofas, fofas- sempre costumam dizer que elas me levam tipo  isca de arapuca, sabe? Claro que são elas que pegam no final, mas, anyway, fica todo mundo feliz :)

Tem coisas que nunca mudam, uma pena. Homem bêbado. Piriguetes ( eu nunca sei se este termo quer dizer que elas oferecem perigo ou que elas estão à perigo, mas fico com a segunda opção) olhando torto. Gente sem noção. Fila pra pagar. Homem vestido com camisetinha justinha ( arghhh). As meninas que, na verdade, nunca saíram dos anos 80 e se vestem com as mesmas roupas ridjeeeeculas, mas agora é fashion. Muita maquiagem ( isso mudou, há 10 anos atrás eu era a única pessoa maquiada das festas). Mas tudo bem. Meu coração é cheio de amor, aliás, eu sou plena de amar e ser amada. Essa caça esvaziada não me ameaça mais, não me diz respeito. E pode acontecer de tudo, isso NINGUÉM TIRA DE MIM.

Achei ótimo ter compreendido mais isso. Porque assim venci mais um medo, pratiquei mais uma coragem e tive um ganho: posso me acabar de dançar onde eu quiser, essa gente perdida pode tentar vomitar seu jogo pra mim, não cola mais. O que vier- esses gatos pingados que ainda acreditam no amor e no encontro- é sempre lucro e não perda. 

Meu coração é plenitude, é isso que eu vibro por aí.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Popozudas, preparadas e românticas.

Daí que um dia, você emagrece. Não o suficiente, mas o bastante pra se animar a tirar a roupa na frente de alguém. Daí que a vida segue, o tempo cura, você perdoa, porque enfim, nós somos essas pobres criaturas imperfeitas.

Aí você, que trabalha, faz faculdade e é mãe solteira, tem a idéia brilhante de se inscrever num site de relacionamentos, já que entendeu que a vida pode ser simples. E aí você põe lá uma fotozinha mais ajeitadinha, escreve umas bobagens engraçadinhas sobre si mesma e espera. Espera as figuras insólitas que vão aparecer. Não que eu tenha nada contra, eu sou bem do tipo que nada do que é humano pode me ser estranho. Além de que,  pra quem tava curtindo uma insônia tediosa enquanto a bebê dormia, qualquer entretenimento tá valendo. E vai saber, né? Vai que aquele sujeito aparentemente maluco tem a dizer justamente o que você precisava ouvir...

Aí um dia você conhece um cara legal. Papo bom. Alto. Foto ajeitadinha. Culto. Gentil. E vai conversando, conversando até que...opa...você não é amigo do Fulano? E era. Daí a gente descobre vários amigos e  cidades e coisas em comum.  Inclusive que ele acabou de se divorciar e diz todo orgulhoso que a iniciativa foi dele. E claro, que para a narradora romântica que vos fala, isso já foi um cooler, mas me entendam: foi uma coincidência que só seria verossímel em novela e melhor não detalhar, mas eu precisava insistir. E você, mulherzinha romântica como eu, logo concluirá:  meudeusdocéu, era pra acontecer, são almas gêmeas. Ok. Agora vamos enxugar a feminice, subtrair o estranhamento da coisa para a conclusão final: era um encontro significativo e valia a pena insistir um tico.

Daí a novela continua no orkut. Bom, continuaria. Porque no orkut do cara tem 100 piriguetes e você é só mais uma. Antes de mais nada, queria dizer que eu não gosto do termo piriguete. Porque é machista. Porque toda mulher tem o direito de ser piriguete o quanto queira.  Mas todo mundo aqui sabe identificar uma piriguete como o meu exato alter ego, né? Pois é. E também, a esta altura, eu já havia passado por cima de uma série de coolers como divergências políticas e uma violência sutil em escutar: " que saco pagar pensão pra aquela vaca ( a ex)". Por isso tive que avançar e chegar a dois dilemas indignantes: 1. Como assim esse cara legal tem este gosto duvidoso? 2. Como assim eu não sou a única? Então existe isso de galinhagem virtual ( eu pensava que só nerds bem intencionados iam parar nos sites de relacionamentos...)?

Aí você fica meio chocada. Que mundo cão é esse onde nem protegido por um computador,  o anonimato, a distância, a fantasia, você pode ser fiel e romântico ( e se você não quer ser, OK, nobody needs to know...)
E como esse cara não percebeu que, veja bem, você não só não é "só mais uma" como você é a mulher mais fodona que ele vai conhecer na vida dele e que, veja mais uma vez, vocês se encontraram numa sorte muito louca num site de relacionamento cheio de gente bizarra e isso deveria significar alguma coisa mais do que o ordinário?

Agora me diga, como é que a gente explica isso sem parecer arrogante?

A verdade é que essas coisas ululantemente óbvias a gente não deve explicar, nunca, jamais, em hipótese alguma. E eu tenho uma vasta, vastíssima experiência em fracassos deste tipo, que  ao menos serviram para alguma coisa: saber que para bom entendedor, meia palavra basta. E que o mundo está repleto, lotado, transbordando de gente que, mesmo se a gente esfregar a simplicidade e a clareza do amor na cara delas, elas não vão enxergar. Porque estão machucadas. Porque falta amor no coração.
Da próxima vez que o cara aparece, você, que já concluiu tudo isso mas  tb já tem idade suficiente para saber que é perigoso tirar conclusões unilaterais, diz apenas: "Olha, acho que não faço seu tipo..."
E por causa disso tenho que ouvir um monte de coisas. Tipo, que sou estranha ( really?), arrogante ( surpresa!) e que julgo as pessoas pela aparência e isso é feio (uau) e que, sites de relacionamento servem pra gente conhecer pessoas, ora bolas.

Sei.

Daí, essa moça romântica porém vivida que vos narra, encerra o assunto com um  simples: "realmente, eu tinha falsas expectativas ( o que não significa que eu esteja de acordo que a melhor opção seja não ter expectativas)". 

Mas vamos recapitular comigo. Eu, que fui chutada pra fora do meu casamento com um bebê no colo,  deveria ser a pessoa defensiva e amargurada, não? E acho até que fui e ainda sou muitas vezes, mas não sou isso em essência, e sim, continuo sonhando.  Descobri, com essa novelinha, um paradoxo interessante: eu, que já perdi tudo, perdi também grande parte  do medo. Afinal de contas, o que pode ser mais desolador, desestruturante, do que perder a família, os sonhos românticos, com sua filha recém-nascida no colo? Nada, ou muito pouco. E eu sobrevivi. E eu não odeio o meu ex-marido.  Shit happens, pessoas erram, eu reconheço que as pessoas especiais são complexas. E eu gosto das especiais, mesmo sabendo do preço que se paga. And, I might be lonely but my heart is full, always.

Agora, não significa que eu tenha que achar bonito essa mediocridade toda da ordem das coisas. Nunca achei bonito e pra ser sincera,  nunca entendi como algum sujeito ainda cai nesta esparrela obviamente enganosa e mais histérica impossível que é o poserismo das piriguetes. Mas anda difícil ser frágil neste mundo de popozudas e preparadas, precisa de muita força e coragem. Porém, como diria minha filósofa contemporânea predileta, a Baby Consuelo do Brasil: A vida de Deus não é coisa pra bunda mole, não. Amém.

domingo, 10 de outubro de 2010

Eu fico sempre  impressionada - e muito- com o quão uma pessoa pode se esconder, principalmente de si mesma,  atrás de um belo discurso.
E  conforme o  discurso vai ficando grande : grande, forte, bonito, bem aparatado, impressionante; vai conquistando adeptos. E quanto maior ele fica, mais unânime, mais consistente; cresce também o aprisionamento que ele é capaz de gerar. A ponto de que não entre mais em pauta saber se o discurso diz o que você realmente acredita dizer. Ele  funciona, já tem pernas próprias e já está lá na frente.

Em última instância de compromisso com a verdade, todo discurso quando tá bem bonito e firme tá indicando que precisa ser desmoronado. Porque discurso não é pra ser bonito, não é pra ganhar nada. É só para dizer fidedignamente o que há para se dizer. E  esta é a natureza dos  discursos funcionais: se dizem e morrem. Se não se engessam, aprisionam e viram falácias.

Muitas coisas tem me feito pensar nisso, uma delas o fenômemo Marina Silva. Acho impressionante quando uma pessoa ou instituição fica prisioneira do seu discurso a tal ponto que, sua fala pode ser manipulada para a direção da antítese do conteúdo do discurso, ainda assim, o autor do discurso está tão preso a ele que não vai perceber. O PV, com seu discurso altamente libertário, acaba, em ação, se equivalendo as alas fundamentalistas de direita.

Não duvido das boas intenções da Marina mas do que não duvido MESMO é de que o inferno está cheio de boas intenções- todas elas perdidas em descaminhos de ação e nos labirintos do discurso.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A histérica, o sexo e o professor.

Não é uma fantasia sexual exatamente inovadora, essa de having a crush pelo professor.
Na verdade, pensando bem, é a própria caricatura de uma fantasia sexual histérica: um objeto sexual masculino, mais velho e detentor de um saber que eu desconfio que ele tenha mas só tenho certeza mesmo de que eu não o tenho. É o tal do saber suposto.  Eu acho que ele sabe das coisas, o danadinho. Não, não é uma fantasia surpreendente ou criativa.

Mas outro dia fui pega por ela. O cara era fofo. Eu tenho uma queda por sujeitos fofos. Sabe aquele cara com jeito de nerd, cabelinho almofadinha e que mamãe com certeza aprovaria? Então, este é o tipo. Se for alto, nocaute.  Agora se for correto, do tipo que, se bate no carro de alguém que não está presente, deixa um bilhetinho com o nome, telefone e endereço dizendo: "Desculpe, bati no seu carro, pode me ligar para acertamos", aí já era. E já era mesmo, porque eu sofro de amor platônico. E com este professor foi assim.

E eu, que não sou nenhuma assanhada, ao menos não assim tão óbvia, ia pra aula e mal respirava,  ficava vermelha e meu coração parava de vez em quando. Mas até aí tudo bem, afinal de contas, esta sou eu, uma canceriana romântica e sem lar.  Mas o negócio é que eu olhava pro sujeito e me vinham palavras tipo "Sodoma" ou "Baco" ou ainda, se a coisa tava muito feia pro meu lado, me ocorriam cenas de orgia tipo "A Morte de Sardanapalo". Normalmente, eu sou uma pessoa mais Klimt e suas cenas de sexualidade quase intra-uterinas mas, with the right button pushed, parece que sai de tudo.

Isso seria muito divertido e tal e coisa, não fosse eu estar numa fase tão fragilizada da minha intempestiva vida. Recém-separada, recém-parida, recém-deportada. Lactante, gordinha e vamos parando por aí, a coisa não podia estar pior pro meu lado. E eu sofri um pouco além do limiar que poderia ser considerado prazeiroso . E fui lamber minhas feridas noutro canto, que aquilo estava mais pertubador do que eu podia suportar com minha auto-estima capenga e corrompida.

Eis que ontem dou de cara com esta figura tão ilustre que me evocava o deus Eros todo ornamentado de luz e glória. Talvez a coisa não esteja muito melhor pro meu lado - embora, preciso reconhecer, o tempo cure mesmo quase tudo, se não tudo. Mas eu estou mais aprumadinha, nem que seja só moralmente. E me senti grata por aquilo que ele despertou em mim.  Mesmo que ele nunca venha a saber, me ajudou.   Pena que ele não é mais meu professor.  E isso é tão, mas tão determinante  que o sujeito perdeu alguns centímetros de altura. Ganhou uma voz estranha e uma gagueira que eu nunca tinha percebido. Também achei-o meio mal vestido: camiseta regata é o fim, mesmo no domingo. Ele me cumprimentou e eu  não fiquei vermelha. Tentei pensar em Klimt e tive um certo enjôo. Modelos famosas nunca deveriam falar em público e professores nunca deveriam sair da sala de aula. Isso por uma boa causa, em prol de patrimônio da humanidade: a fantasia  sexual estruturante. E viva Sardanapalo, padroeiro às avessas dos românticos, em seu nome saiamos sempre da lama. Oxalá.


* A figura mostra o quadro referido de Delacroix denominado " A Morte de Sardanapalo". 

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Sincericídio, política correta e hipercrisia.

Quando alguém começa um papo comigo dizendo: "olha, eu  tenho que ser honesto com você..." eu já sei que a conversa está prestes a descambar para um terreno perigoso. Muito provavelmente o interlocutor vai se esconder atrás de argumentos politicamente corretos e/ou argumentos ideológicos bem pouco consistentes. E isso vai servir de justificativa pra qualquer coisa que o camarada use como complemento a esta introdução genérica. A pessoa acha que dizer a verdade, a qualquer preço, mesmo que seja o preço de um casamento, um partido,  uma vida, um coração, é uma coisa bonita e nobre "Eu sou bacana e verdadeiro". E eximível de qualquer responsabilidade, claro, inclusive a de se aprofundar sobre qualquer tema porque está, a priori, coberto de razão ( ou verdade).

Isso me faz lembrar da Carrie Bradshaw, ligando do Egito para o seu marido, bem tarde da noite, para contar que ela tinha beijado um outro sujeito e ele "precisava saber porque eles não tinham segredos um com o outro". Ele, o marido, respondeu de forma muito interessante ( já não bastasse o cara ser alto, rico e bonitão). Ele disse: " mas você precisava mesmo por a perder o meu dia de trabalho e me fazer sofrer por meses só para deitar a cabeça no travesseiro e se sentir melhor? Não há nada a ser feito, nosso casamento é mais forte do que isso, mas agora eu vou sofrer sempre que pensar nisso". Enfim, foi mais ou menos este o diálogo em Sex and the city 2.

Nem toda verdade é a melhor opção ética. Eu acho bem mais bonito aquela criatura que escolhe a sua hipocrisia e é bem radical nela. Hipocrisia: aquilo pelo qual ela aceita fingir que não tem crise. E vai morrer por esta verdade. Se torturado, não abre mão dela. Deportado, preso, louco. Foda-se. E você pode passar um canivete no seu pulso, que ela vai passar no dela e colar o sangue no seu. Pode assinar num papel onde a criatura assinou, que ele nunca vai ser rasgado. Porque a criatura empenhou a própria cabeça naquela mentira. E de verdade, eu prefiro um cidadão que morre pela sua mentira do que um que se esconde atrás de uma retidão  alheia e superficia. Reconheço que é uma obsessão totalmente reforçada pela cultura, essa de buscar o verdadeiro. E aí no "verdadeiro" você pode substituir por vários sinônimos de ocasião tais como: o correto, o feliz, etc... E a versatilidade com que estas palavras podem ser alternadas já demonstra a própria falta de radicalidade do argumento.

"Eu não estava feliz" ou "Eu te amo mas preciso ser sincero com você" são afirmações muito valorizadas por nós, ao ponto de quando alguém as diz, nós já meio que achamos que elas estão auto-justificadas  pelos sentimentos associados a elas, seja qual for o motivo da infelicidade ou do sincericídio que se está prestes a cometer. É como se a verdade fosse uma coisa expiatória e o mal estar do sujeito fosse um argumento que não necessitasse de fundamentação ou relativização. Desculpem, mas não me venham com sinceridades não radicais.  A verdade não é um ataque verborrágico narrativo, ou ao menos, não deveria ser.


Heidegger, o humanista nazista, tem uma proposta bem bonita sobre o que vem a ser a verdade e como nossa cultura associou a verdade à adequação. Uma coisa verdadeira é aquela que se adequa ao conceito prévio que tínhamos sobre  esta mesma coisa. Ou seja: é verdadeiro aquilo que é coerente com os códigos de verdade que eu guardo na caixola. Muito bem. O problema da verdade como adequação é que não há brechas para novidade. Verdade é tudo aquilo que se enquadra no seu código e ponto final. Nao gostou? Problema seu, "não abro mão dos meus valores". Mas peraí. Eu posso compreender que os valores se conservem, mas será que as forma pelas quais eles se manifestam vão ser sempre aquelas que estão previstas lá no seu código da idade da pedra? A essência da verdade é uma danada capciosa. Ela escapa, escorrega se transmuta e a gente nunca pode deixar de perseguí-la. E eu acho muito mais sincero que, antes que alguém diga a outrém que não está feliz, que questione se o seu conceito de felicidade ainda permanece o mesmo. Ou que vá fazer análise, oras.

De modo que eu não me importo mesmo se você é Serra, é Dilma, é gay, é assassino, é padre, é francês. O que eu quero saber de você é se  você se compromete comigo a buscar, em todas as situações, a essência da verdade, por menos óbvia e por mais contraditória que ela se apresente. E que eu possa assinar meu nome junto com o seu numa folha que não será rasgada. E que, no primeiro obstáculo, vc não vai tirar o seu clichê do bolso e esfregar na minha cara, cheio de orgulho e dignidade sincericida.

Mentiras sinceras e muito radicais super me interessam.


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Já faz um tempo que não me reconheço.
E o que eu vejo no espelho
É uma estranha matrona
Sobrecarregada de peso dos outros.
Há no meu corpo partes da minha gravidez
E há ainda partes que são a Inês
E há outras partes que são vestígios
Da crise no casamento
Das mudanças
Da separação
Da dor
Ainda que isso tudo seja, hoje, próprio de mim
Não é necessário que isto seja eu
Eu não vejo a hora de estar só novamente
Só com o que é meu
E com aquilo que, do vivido, eu queira manter
O resto é descarte
Do outro
É o que sobra em toda conta inexata.
É de quem quiser
Mas só será meu, se for eu.
Eu não sou assim, tem muito sobrando aqui em mim.