Não é de hoje que sou fascinada por m o d a, estudiosa apaixonada do tema e que, ao mesmo tempo, tenho dificuldades para acatar as regras de inclusão para participar deste universo.
A minha primeira incursão formal no universo da moda foi em NY. Eu já era psicóloga, já trabalhava há 4 anos num Hospital-dia reconhecido quando meu marido (na época) foi transferido para NY. E eu, fui com ele. Eu me lembro que estava muito cansada do meu trabalho em saúde mental. E que achei ótimo ter a chance de me desligar dele para repensar escolhas profissionais.
Em outro país me senti livre e isso foi um fator decisivo para que eu assumisse minha paixão por moda. Eu sempre gostei mas me sentia intimidada por um julgamento que eu atribuía aos meus pares e familiares mas que no fundo, no fundo era um preconceito que eu mesma alimentava: moda é um troço vazio e consumista de gente fútil. Preciso me livrar deste vício. Mas o interessante é que, morando na meca do consumo, o consumo em si me provocava uma sensaço de fastio e deu a deixa para que eu procurasse outras abordagens de moda.
Comecei comprando muitos livros incríveis em sebos. De história da moda, de moda e cultura, e livros vintage de fotos de moda. Muitos, muitos mesmo, eu trouxe uma mala deles. E lendo e estudando me animei e fazer um curso na Parsons. E depois outro. De modo que cheguei de volta ao Brasil decidida a mudar de carreira.
Fiz vestibular e ganhei bolsa para cursar a única faculdade de moda que existia em Brasília na época.
Comecei, mas a sensação já não era a mesma. As pessoas ligadas a moda tinham sim este perfil fútil, consumista e superficial que eu abominava. Estavam lá para serem vistas e não para aprender. Havia também uma competição de quem se vestia melhor, quem tinha coisas mais "in" e quem conhecia mais de perto os bastidores dos desfiles e estilistas. Era um verdadeiro mundo a la " O Diabo veste Prada". Valores distorcidos, fura-olhos e muita, muita cabeça de vento. Estudar? Nem pensar. Isso é para os filósofosos, médicos, etc. We are too sexy for school.
Felizmente eu não tinha deixado meu emprego e larguei o curso de moda sem grandes dilemas.
Mas nunca mais deixei de acompanhar, de ler e de me manifestar sobre este tema. Sou apaixonada pelas diversas áreas do saber que podem ser sintetizadas numa peça de roupa. História da moda é fascinante. Aspectos culturais, políticos e econômicos que influenciam a concepção de ser humano que valorizamos a um determinado tempo são muito esclarecedores sobre o modo que nos vestimos, as tendências de moda e como nos colocamos individualmente frente a isso. Os modos de criação e produção da indústria da moda são muitas vezes inovadores, originais e interessantísimos. Psicanálise e aspectos inconscientes e sexuais da moda, nem se fala, chego a chorar de emoção. Mesmo o lado estético simplesmente, se não existisse nenhum outro, já me bastaria: é comovente o ato particular e pessoal de se fazer belo. De se fazer amável aos olhos dos outros.
Acompanho também os jovens talentos brasileiros. Acho que é neles que a gente pode ver a moda genuína, antes de entrar na máquina capitalista de produção em série, troca de favores e podridões do gênero.
Ainda assim, com tanta paixão e conhecimento, tenho muita dificuldade de me inserir no universo da moda.
Não me encaixo, por exemplo, na categoria de blogs de moda. Eu os detesto todos ( ok, quase todos).
Já falei aqui sobre o que eu penso dos blogs "Looks do dia". Ainda que a idéia seja muito boa, a execução dela precisaria ser mais espirituosa de modo que não se descambe pro lado de uma campanha pró-consumo, pró- grifes ou pró qualquer coisa sinistra que deturpe ainda mais a abordagem da Moda. Aliás, são as pessoas do mundo da moda as grandes responsáveis pelo subjulgamento deste campo tanto como expressão artísca quanto como ciência histórica. Pra maior parte delas o negócio é comprar, ter e mostrar. Além de estipular, sutilmente ou não, o que é cool e o que não é. Isso, claro, é o grande fator hierárquico: é melhor aquele que manda mais no que serão as tendências e angariam mais seguidores.
Eu quase sempre me lembro, na minha ronda eventual de excluída que observa os blogs de moda, de uma propaganda na Tv que foi veiculada por curto período e logo depois proibida. O comercial dos anos 90 consistia em uma criança mostrando um objeto e dizendo: " Eu tenho. Você não tem-ê", lema repetido à exaustão.
Fico impressionada também com o engessamento que as pessoas fazem de si mesmas e da sua interpretação da moda quando, para mim, moda é justamente o contrário disso. " Eu sou rocker e romântica portanto meu estilo é este". "Já eu sou vintage, portanto estou condenada a gostar de tudo que é vintage e a me vestir de forma condizente". Gente, que povo tão unívoco, né não? Eu sou tantas coisas...
Para terminar desintalando minha pobre garganta, vou dividir a última que me aconteceu em mais uma tentativa fracassada de abraçar o universo da moda e seus problemas: fui limada de uma lista de 23 blogs porque eu era "muito complexa". Sim, gente, foram estas as palavras: " é isso que me incomoda em você, essa complexidade." Pois é, é essa complexidade justamente que comportou, por mais de uma vez, o trabalho empenhado e generoso de 23 blogueiras de moda em uma só.
Claro que me chateei muito na época. Separada, lascada e me desfazendo das minhas roupas para pagar as contas, eu precisava mesmo da ajuda e da divulgação do brechó nos blogs de moda. Mas nada como uma resistência no caminho para gente se tornar ainda mais forte. Encontrei outra maneira de pagar minhas dívidas ( porque entendi rápido que não, não iria me vender a este ponto), me joguei nos livros - ah, os livros, são consolo e solução para quase todos os problemas- e sigo com meu brechó por prazer e amor e com o blog de moda e cositas mas à minha moda.
E deixo aqui o meu manifesto: Por uma moda complexa, acolhida em seus múltiplos aspectos e agregadora.

Você disse que "limada de uma lista de 23 blogs porque era "muito complexa", também sinto-me uma estranha diante das listas vigentes dos blogs de moda por ai.
ResponderExcluirPra mim faz muita falta produtos abrangentes, que sejam possíveis tanto pra quem só pode comprar em magazines populares, quanto pra quem é habitué dos lançamentos dos estilistas badalados.
No campo da moda de rua, creio que tornou-se habito as condutas tão uniformes quanto aquilo que eu usava na escola nos anos 80/90. Tachas, poás, laços, humilhadas disfarçadas de estilo. Mas... será é estilo? Estilo não deveria equilibrar as peças de roupa/acessórios e as identificações de quem usa?
Sendo mais prosaica, não deveria ser usável e lindo? E finalmente: para fazer sucesso não
deveria ter alguma arte, algo especial, um bordado, um jeito de costurar prendado, digno da costureira... e não apenas o tecido que podemos
comprar pela internet, um saia disponível na Renner/C&A/Zara?
Talvez impere a máxima de que deve ter cara de boa moça. Taí algo que eu não me sinto quando uso aqueles ícones do momento. Não dá. Não funciona comigo.
Creio que deva haver um delicado equilíbrio em tudo, desde o jeans a introdução adequada do laço.
Eventualmente escrevo (no blog ou por email) sobre algo que comprei, testei e vi que funciona. Sem pretensões de convencer alguém de que é qualquer coisa, ali estão apenas as minhas impressões deixo isso claro, fico feliz quando além de gerarem um post contribuem com a melhoria na vida de uma leitora.
Creio que seja bom o sucesso que tem pessoas-celebridade tem através da linha retrô de todo dia, rocker-day... Mas creio que as pessoas que estão do outro lado (leitores) merece melhor do que as tendências oferecidas nas vitrines, ainda que de modo velado.
Mas cá entre nós: é ou não é desesperador? Você chega ali ávida por uma novidade naquela mesmice, mas o que acontece, na real um chove não molha, que por estarmos ávidas por notícias não recusamos, dai abrimos outro site e igual, uma sequência de repetições! E salve-se quem puder. Eu leio blogs de moda quando quero me informar sobre o meio, mas é cansativo, encontro um texto monotemático coisa que tenho horror.
São pessoas que fazem sempre a mesma coisa, estão sempre impecáveis: cabelos lisos, consorte perfeito e amado, roupa e acessórios sempre em simetria com as vitrines. Aliás tenho a sensação de ver pessoas algumas de vitrine: calça X, blusa Y, vestido Z... E o tal do estilo pessoal está cada vez mais raro. Talvez porque as pessoas se sintam bagunçadas se apresentarem a si mesmas ali. E ainda chamam de moda de rua.
Eu abro, vejo, clico no X e volto pros livros. A realidade das letras nunca é chata...
Eu não me identifico com as meninas dos blogs de moda. Gosto muito de ver roupa e acessório em blog de gente de verdade, com: cicatrizes, sinais, celulites...
Espero, de coração, que eu possa entrar num blog femino e possa encontrar uma inspiração diante da atmosfera ao redor, que tá impregnada de mesmice.
Detalhes que têm história e a história fazem toda a diferença. Ali a roupa cai tão bem.
gabriela,
ResponderExcluirMuitoobrigada por dividir comigo suas impressões tão ricas.
Eu concordo com vc: é desesperador, sim. A mesmice a qual vc se refere tem um cheiro de esvaziamento, de falta de vitalidade, que sempre me desesperam.
Numa época difícil da minha vida, eu entrava no Hoje vou assim da Cris Guerra e tinha ataques de pânico. De verdade. Por que me passava uma idéia desconfortável de que não há saída, de que somos coisificados e de que tudo carece de alma.
E adorei esta sua colocação: " Ali ( onde tem história, alma, coração) a roupa cai tão bem". É isso. É tão gostoso, tão bonito ver roupas e falar de roupas quando a roupa não se reduz num pedaço banal de pano com uma etiqueta. E é um alento toda vez que eu me identifico com algo assim: " me faz parecer menos pó", como diria Zeca Balero.
Maura,
ResponderExcluirEu sigo pouquíssimos blogs de moda, e confesso que é por puro preconceito mesmo. Venho de uma família de "intelectuais", que acha este mundo muito fútil e tem horror da postura "vc é muito complexa", "eu tenho, vc não tem!", "como vc não tem? Está out!" e assim por diante. Tanto é que quando comecei um blog sobre cosméticos, senti que eles (minha família) ficaram meio chocados, e estranhos, talvez por não entenderem que pode haver mais do que o mundo fútil do consumismo e da competição pra ver quem é mais cool.
Mas eu continuo sendo preconceituosa, porque não me apetece nem um pouco entrar num blog desses e ver o mesmo tipo de post: "o estilo de fulana de tal", "como usar ankle boots", "as gafes da ciclana". Muito raramente encontro dicas de como usar um acessório, que pra mim pode ser útil, já que não sei como usar, confesso.
As pessoas com as quais me relaciono, em geral, valorizam características de caráter para emitir opiniões sobre outras pessoas. Depois é que entra, talvez, a questão da roupa, da maquiagem... se entrar! Eu não fico olhando pras minhas colegas e pensando "ai, fulana está tão brega hoje!" porque isso não me importa. Mas sim, consigo admirar uma roupa de bom corte, bonita, e uma pessoa que sabe se vestir, mas com as devidas proporções.
Lendo vc falar de moda até me deu vontade de aprender um pouquinho mais!
Beijos
Dáfni,
ResponderExcluirÉ isto mesmo!
Eu tb venho de uma família onde moda é "coisa de gente à toa" e também tive que lidar com a surpresa dos meus pais, principalmente, quando me enveredei por este campo.
Mas uma coisa que aprendo junto deles é que não há "coisas de gente intelectual e coisas de gente fútil". Há coisas. Uma pessoa medíocre será medíocre tanto se ela for professora de Astronomia quanto se for estilista ou maquiadora.
E uma pessoa inteligente faz a diferença tanto na Física Quântica quanto como editora de moda de uma revista.
Moda é história, moda é arte, é tão fascinante, vamos aprender mais juntas!
beijos
Maura, o que percebo com essa confusão toda que aconteceu sobre a sua participação ser excluida das 23 blogueiras é que( desculpa a minha sinceridade) vc me aparenta ser uma pessoa muito inteligente mas que não tem muito controle emocional( chamamos isso em minha area de falta de inteligência emocinal). Não quero te ofender, por favor não entenda como isso, mas nem sei explicar o pq, mas gosto de vc( até sei sim o motivo, vc é idêntica a minha irmã mais velha,ate seu corpo parece com o dela, nunca vi tamanha semelhança). vc me parece explosiva, e sem muito controle das suas palavras e hoje em dia Maura inteligência emocinal é tudooooo. Convivemos e iremos conviver sempre com todo tipo de gente nessa vida e não vai adiantar muito nossos diplomas e nosso excelente curriculo se não suportamos uma simples rejeição não é verdade?(faz parte das inumeras relaçoes que formamos na vida) Minha irmã tem muita coisa sua, sério mesmo, ela foi primeira de turma sempre( só tirava 10 em tudo), formou-se num curso que na epoca ninguém fazia, era a melhor em tudo que fazia( sempre foi) mas não consegue segurar o temperamento forte que ela tem. Eu sei o tanto que ela sofre, e sei que ela não queria ser assim. Acho que qdo ela se sente injustiçada e insegura ela reage com agressividade(a sua defesa sempre vira um ataque), mas tb sabe ser doce e amiga como ninguém. O conselho que te dou é: todos nós temos partes maravilhosas e outras insuportáveis na nossa personalidade, alimente aquilo que a de melhor em vc, aquilo que te deixa leve e que te traz mais amigos e tente diminuir a sua critica e a vontade de sempre expressar sua opinião( com o tempo aprendemos que nào é sempre que devemos falar) Desculpa o tanto de coisa que escrevi, mas é como te falei, tem algo em vc muito familiar. bjs
ResponderExcluirManu
Manu, eu queria dizer que fui dormir com suas palvras de ontem no coração. E tão bom qd a gente recebe amor gratuito e inexplicado de alguém que pode acolher nosso jeito temperamental. A cada vez que isso acontece, cresço mais um tanto e na minha existencia isso significa tornarsemais doce, menos defensiva. Devagarinho eu chego lá
ResponderExcluirlá
Que bom ler isso Maura, para mim o que importa mesmo é amar as pessoas como elas são, sei que isso é muito dificil as vezes(tb me irrito com facilidade), mas TODO MUNDO merece amor, carinho e respeito(inclusive as blogueiras que vc cita, deixe disso Maura, esses chigamentos todo não te deixará mais feliz e não te levará a lugar algum). E o mais importante de tudo, elas tb são pessoas boas, e cheias de qualidades e virtudes, assim como vc é.bjs querida
ResponderExcluirManu
Ah, e o principal de tudo é que eu me importo com sua dor viu? Imagino como vc deve estar sofrendo com seu divórcio e ter que retomar toda sua vida( deve ta sendo barra) e não queria ta na sua pele. Mas abaixe a guarda, deixe as pessoas te amarem. Lú é assim mesmo, primeiro ela vem com um comentário bem ácido e duro em seguida eu solto um sorriso para ela, chamo ela de braba e ela me abraça....É sempre assim. Deixe-se amar, não tenha medo da rejeição, use sua inteligência a seu favor. Olha sou bem mais apegada a Magali do que a Luciana(pelo temperamento de Magali e por nossa idade ser próxima)mas luciana é minha defensora, me sinto cuidada por ela(ninguém é melhor do que ela nisso). Só basta eu ligar e dizer: Lú preciso de vc e pronto ganhei uma gladiadora para me defender, amo isso sabia? Mas queria muito não ter tanto medo de me relacionar com ela( medo de ser agredida) e sei que estamos cada dia mais nos aproximando e isso tem me deixado muito feliz( eu e ela), pq amar o fácil todo mundo faz né? Amor o dificil é que é necessário...bjs
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